14.12.08

Poema lindo e sem titulo (autoria de Roberta, minha querida amiga)

Não tenho foto
Nem faculdade
Nem historia

Sou frio
Velho
E arisco

Moro no mato

No quarto
Na escuridão de mim

No quinto
É o jeito de viver

Se choro, é que já sorri por tudo
Se burro, é porque cansei de aprender
“intelectuar” por ai

Meu pulmão preto
resultado da vivência
do contato com seres que se consomem
Que morrem e matam

Que fumam e se estilizam
Que bebem e sorriem

Que choram e mentem
Enganam-se e viram gente

Só é o meu lugar

O quarto pode ser o quinto
E é só lá que me vejo

Feliz e no aconchego
E sem essas rimas normais
Que me cansam
Assim como as pessoas que vejo

E as que me olham
As imundas que invejam
As bonitas que sorriem
E as burras felizardas
As corpudas cheias de vento
E silicone

E meu cérebro preto
resultado de tudo que já vi.
E não compreendi, nem quero mais
Alias, nem o quero mais!!!

8.12.08

ANA CRISTINA CÉSAR

Aventura na Casa Atarracada

Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

ESPELHO

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

SYLVIA PLATH

5.12.08

SER PEDANTE

Dedico estes versos ao primeiro homem
(por hora o leitor não terá como saber, porque o primeiro e o terceiro, assim como o do meio, são o mesmo)
Lerá portanto o que eu escrevo agora
E não me importa a tristeza
Do secreto futuro onde víamos nós
E não havia mais nós
Não há um único ato que não corra o risco
Confesso
Ainda o amo amor de raiz
Como houve um primeiro romance
As mãos tremiam a voz rouca
Tudo queria tocar, sentir
Foi aí que o adeus começou a me doer feito faca
Estabeleci um vinculo
O sabor já não era meu
Mas eu aceitei provar
Naquele exato momento disse a mim mesma:
Estarei junto dele no infinito e nos seus braços dormirei
Ele segurou meus dedos e permitiu o prazer
Negro prazer
Aqui sim a praça teve graça e a rima rimou tanto que travou a língua do personagem menino que ria de seu destino
Eita piedade
Depois de fotografar a cena
Não sobrou nem carvao
O leito desceu a margem
E a sede me fez pedir

Hoje as palavras arrebentam a minha secreta catedral tipográfica
E meu único nome já não queria existir
É tempo de Natal.

E é cinza o poema descrito

Sofro ter ouvidos e calos
O que ainda sinto é o verbo pronunciado
Por tua boca
Por tua mao

E que nessa hora eu possa lembrar
Que todo instante solitário
É também uma véspera
De outro amor
De um quarto homem,
Que eu ainda sonho
Em permanecer primeiro

De tanto acreditar e com medo
Não acredito com medo
De ter que desacreditar

MALDIÇAO

Quero ser enterrada do seu lado
Como num filme extraordinário
Em que nada pode dar certo

Porque esta sempre foi a nossa escolha.

29.11.08

CHEQUE MATE



Uma pausa na vida faz bem. Esta na hora de mudar as peças. Encerrar o jogo.

16.11.08

A senhora

Que coisa como as pessoas conseguem ser tão maniqueístas. Acho que é essa coisa de televisão, cultura pronta. Pois bem, ando cansando disso tudo. Depressão. Tristeza. Depressão. Estresse. Clarice, Dostoievsky, Pessoa. Preciso voltar a acreditar nas coisas. Não é otimismo. Pode ter até pessimismo nisso. Mas sonhar virou breguice e momentos felices utopias e infância passado. Fui no circo ontem. Isso me fez pensar. Eu não quero mais aturar nada. A mudança que ocorreu na minha vida me obrigou, de certa forma, conscientemente, a aturar. Venho vomitando demais. Minhas mãos morrem. Meus pés formigam. E minh'alma desacredita. Não é culpa de ninguém. Antes fosse o diabo das trevas pecadoras. Também não pago erros. Apenas me adapto cada dia mais e me escapo cada dia mais de mim. Estou atrás de momentos tranquilos e felizes. Tropeços engraçados e noites no meio fio. Quero urgentemente parar de me preocupar. "Descansar leve, respirar fundo". Será que assim poderei transmitir algum valor? E retornando ao principio da onde não pretendo iniciar minha romaria: sociedade de merda. Vou partir a partir de agora.

11.11.08

minha familia e seu fins de semana

Ela estava sentada no chão da cozinha. Livro nas mãos. Grande Sertão: Veredas. Aquela edição especial. Capa vermelha e branca. “Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.” Toda saudade é uma espécie de velhice. Aí deu vontade de pensar um pouco nas coisas. Como aquilo foi parar ali e como se sumiram aquelas panelas. Isso porque ela dispersava. Mesmo quando a leitura a entretinha. Fazia parte de seu jeito. Aí bateu uma imensa vontade de ser um jagunço. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota - quase tudo para ele é o igual.
Pelo livro e pela responsabilidade da vida. Desta vez não chorou uma lagrima. E naquele instante o pensamento se fez mais forte que o lugar. Nem a lua teve vez. Nada mais. A resposta vinha: “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para havê”. Sertão é o sozinho. Honesto de si para si. Quem ama é muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.
Era hora de parar a leitura. Mas não conseguiu nem sequer respirar. Algo doía-lhe muito ainda. Dor de faltar fôlego até para pegar um cigarro na gaveta. Levantou e fez um ar de quem iria gritar, mas falou manso e baixo: -¬¬¬ Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que o outro cozinhou quente demais. Prosseguiu olhando no espelho, como se olhasse uma janela: - Quem desconfia, fica sábio.
Fechou rapidamente o livro e lavou o rosto em água fria. Depois repetiu o gesto em água morna. Acho que chorou, mas não deu para ver direito se era água ou choro. Eu sei que ela deve pensar como eu. Nunca encontrará as respostas de que precisa. Por isso permanecerá calada. Mas nunca alcança a porta para poder fechá-la.
É tarde da noite. E a noite é sempre uma amiga leal. Nossa, como se parecesse comigo. Nos gostos e pensamentos. Nos sentimentos. (não se engane com as pessoas/ não se precipite)
“Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência - calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz .
Mas , por fim , eu tomei coragem , e tudo perguntei:
-"O senhor acha que a minha alma eu vendi , pactário?! "
Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu :
-"Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais ..."
(...)
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. (...) Amável senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano , circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se fôr ... Existe é homem humano. Travessia.”

7.11.08

Tristeza

Da minha decepção só nasce dureza
Do meu Amor Só nasce Tristeza
Não sei o que quero
Mas sei o que não posso ter

Florabela em http://www.pensador.info/

30.10.08

Manoel de Barros

DESEJAR SER

Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

17.10.08

A arte de fazer arte



Nem todo artista faz arte. Nem toda escrita é digna de um escritor. As vezes temo o futuro...

6.10.08

Síntese da felicidade

Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

30.9.08

MEMÓRIAS DO SUBSOLO (Dostoievski)

“sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. (...) Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais”. A leitura de Memórias do subsolo pode sair caro a uma consciência sem perturbações, por isso, não é recomendável.

28.9.08

Inespera-me

Eu perdi de vista meu destino. Peguei minha liberdade vermelha e por instantes mergulhei na noite como uma figurante do acaso. Não era eu não era. Oca. Nem sempre tudo termina no fim. Naquele dia, como se fosse para calar um pouco mais, isso se fez graça. Realmente temo o dia seguinte. Sempre tememos. Ora por gostar, ora por desgostar. Faço da vida um trapézio. E quando caio, caio em uma cama elastica que transporta para muito mais além do grito da dor. Acho que a meninice é meu contraponto. O motivo básico da minha vida é que em certa hora eu retorno do mergulho profundo e desato de rir do mundo. Eu tomei a iniciativa que era sua. Nunca imaginei que pudesse me surpreender. Tenho medo das pessoas, do que elas podem provocar em mim. Sou um cristal líquido. Não quebro quando líquida. Quebro em outras ocasiões. Não posso te agradecer assim porque você vai ficar sem entender nada. Eu não vou amar. Mas me apaixonarei em todos os momentos que forem necessários. Uma estratosfera de calma pousou aqui. E por aqui vai ficar. Momentos...

26.9.08

A matéria prima da arte moderna sao os sonhos

"Sonhos particularmente mais fortes e doces vinham depois da devassidãozinha, vinham com arrependimentos e lágrimas, com maldições e arrebatamentos".

O que havia era esperança e amor.
Ou herói ou lama.

Entre tantas mentiras havia algma verdade?
Eu me contradizo por medo e você se contradiz por que?

Melhor não dar a resposta.
Let it be.

19.9.08

Mulheres, mulheres

"(...) Neste ponto eu me deteria, mas as pressões da convenção o determinam que todo discurso deve terminar com uma peroração. E uma peroração dirigida às mulheres deve ter algo, voces hão de convir, de particularmente exaltador e nobilitante. Eu lhes imploraria que se lembrem de suas responsabilidades, que sejam mais elevadas, mais espirituais; eu lhes lembraria quanta coisa depende de vocês e que enorme influência podem exercer no futuro. Mas essas exortações, penso eu, podem ser tranqüilamente deixadas a cargo de outro sexo, que as colocará, e a rigor as tem colocado, com muito maior eloqüência do que posso alcançar. Quando vasculho minha própria mente, não encontro sentimentos nobres sobre sermos companheiras e iguais e influenciarmos o mundo para fins mais elevados. Descubro-me dizendo, breve e prosaicamente, que é muito mais importante se ser o que se é do que qualquer outra coisa. Não sonhem influenciar outras pessoas, eu diria, se soubesse fazê-lo de forma mais brilhante. Pensem nas coisas como são.

E mais uma vez vem-me à lembrança, mergulhando em jornais e romances e biografias, que, quando uma mulher fala com mulheres, deve ter algo muito desagradável escondido na manga. As mulheres são duras com as mulheres. As mulheres não gostam das mulheres. As mulheres - mas será que voces não estão completamente fartas da palavra? Garanto-lhes que eu estou. Concordemos, então, em que um artigo lido por uma mulher para mulheres deve terminar com algo particularmente desagradável.

Mas como é isso? Em que posso pensar? A verdade é que freqüentemente gosto das mulheres. Gosto de sua informalidade. Gosto de sua inteireza. Gosto de seu anonimato. Gosto... Mas não devo prosseguir desta maneira. Aquele armário lá... Vocês dizem que ele contém apenas guardanapos limpos, mas e se Sir Archibald Bodkin estiver escondido entre eles? Permitam-me então adotar um tom mais severo. Ter-lhes-ei eu, nas palavras precedentes, transmitido suficientemente as advertências e a exprobação da humanidade? Falei-lhes sobre o conceito muito baixo em que as tinha o Sr. Oscar Browning. Mostrei o que Napoleão pensou de vocês em certa época e o que Mussolini pensa agora. Depois, para o caso de alguma dentre vocês aspirar à ficção, transcrevi para seu bem a recomendaçãoo do crítico sobre reconhecerem corajosamente as limitações de seu sexo. Referi-me ao Professor X e dei destaque a sua afirmação de que as mulheres são intelectualmente, moralmente e fisicamente inferiores aos homens. Transmiti-lhes tudo o que veio a mim sem que eu procurasse, e aqui está uma advertência final, do Sr. John Langdon Davies. O Sr. John Langdon Davies adverte as mulheres de "que quando as crianças deixam de ser inteiramente desejáveis, as mulheres deixam de ser inteiramente necessárias". Esspero que vocês tomem nota disso.

Como posso incentivá-las mais a empreenderem a tarefa de viver? Minhas jovens, diria eu, e tenham a bondade de prestar atenção, pois a peroração está começando, voces são, a meu ver, vergonhosamente ignorantes. Nunca fizeram uma descoberta de qualquer importância. Nunca sacudiram um império ou levaram um exército à batalha. As peças de Shakespeare não são de sua autoria, e vocês nunca apresentaram uma raça de bárbaros às bençãos da civilização. Qual é sua desculpa? É muito fácil vocês dizerem, apontando para as ruas e praças e florestas do globo fervilhando de habitantes negros e brancos e cor de café, todos extremamente ocupados com o tráfego e as empresas e o fazer amor, que estivemos ocupadas com outro trabalho. Sem nosso trabalho, esses mares não seriam navegados e aquelas terras férteis seriam um deserto. Geramos e alimentamos e lavamos e instruímos, talvez até os seis ou sete anos de idade, o bilhão e seiscentos e vinte e três milhões de seres humanos que, segundo as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda, leva tempo.

Há uma certa verdade no que vocês dizem, não o nego. Mas, ao mesmo tempo, permitam-me lembrar-lhes que existem pelo menos duas faculdades para mulheres na Inglaterra desde o ano de 1866; que, a partir do ano de 1880, a mulher casada foi autorizada, por lei, a possuir sua própria propriedade; e que em 1919 - e já se vão aí nove anos inteiros! - ela obteve o direito de voto. Será que posso também lembrar-lhes que a maioria das profissões está aberta a vocês há quase dez anos? Quando refletirem sobre esses imensos privilégios e sobre a extensão de tempo em que eles vêm sendo desfrutados, e sobre o fato de que deve haver, neste momento, umas duas mil mulheres capazes de ganhar mais de quinhentas libras por ano de um modo ou de outro, voces hão de concordar que a desculpa da falta de oportunidade, formação, incentivo, lazer e dinheiro já não se aplica. Além disso, os economistas têm-nos dito que a Sra. Seton teve filhos demais. Vocês devem, é claro, continuar a ter filhos, mas como dizem eles, aos dois e aos três, e não às dezenas e às dúzias.

Assim, com algum tempo em suas mãos e algum conhecimento livresco na cabeça - voces já tiveram o bastante do outro tipo e, em parte, suspeito de que estejam sendo enviadas à universidade para serem desinstruídas -, sem dúvida ingressarão num outro estágio de sua carreira muito longa, muito laboriosa e altamente obscura. Milhares de penas estão prontas para sugerir-lhes o que devem fazer e que efeito terão. Minha própria sugestão é um pouco fantástica, admito; prefiro, portanto, colocá-la em forma de ficção.

Disse-lhes, no transcorrer deste ensaio, que Shakespeare teve uma irmã; mas não procurem por ela na vida do poeta escrita por Sir Sidney Lee. Ela morreu jovem - ai de nós! Não escreveu uma só palavra. Ela está enterrada onde os ônibus param agora, em frente ao Elephant and Castle. Pois bem, minha crença é que essa poetisa que nunca escreveu uma palavra e que foi enterrada numa encruzilhada ainda vive. Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas, precisam apenas da oportunidade de andarem entre nós em carne e osso. Essa oportunidade, segundo penso, começa agora a ficar a seu alcance conferir-lhe. Pois minha crença é que, se vivermos aproximadamente mais um século - e estou falando na vida comum que é a vida real, e não nas vidinhas à parte que vivemos individualmente - e tivermos, cada uma, quinhentas libras por ano e o próprio quarto; se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco da sala de estar comum e virmos os seres humanos nem sempre em sua relação uns com os outros, mas em relação à realidade, e tb o céu e as árvores ou o que quer que seja, como são; se olharmos mais além do espectro de Milton, pois nenhum ser humano deve tapar o horizonte, se encararmos o fato de que não há nenhum braço em que nos apoiarmos, mas que seguimos sozinhas e que nossa relação é para com o mundo da realidade e não apenas para com o mundo dos homens e das mulheres, então chegará a oportunidade, e o poeta morto que foi a irmã de Shakespeare assumirá o corpo que com tanta freqüência deitou por terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras, como antes fez seu irmão, ela nascerá. Quanto a ela chegar sem essa preparação, sem esse esforço de nossa parte, sem essa determinação de que, quando nascer novamente, ela achará possível viver e escrever sua poesia, isso não podemos esperar, pois isso seria impossível. Mas afirmo que ela viria se trabalhássemos por ela, e que trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena."

Virginia Woolf, outubro de 1928.

17.9.08

À sua presença

“Vixi Maria como eu precisava ouvir isso”. Ela sentiu os dedos do pianista em cada nota que soava em seu ouvido. Bela música. Mais uma vez bela. Você sabe usar as palavras assim como as notas e compor essa melodia. Que de hora em hora cruza minha vida e me deixa feliz. Cadáveres putrefatos. Possivelmente, isto é, muito provavelmente. Dançamos a vida. E em vastos momentos nos damos às mãos. Nem os duplos calmantes que escondem as mentiras nos tornam menos sensíveis à luz do dia. Somos o que somos o que queríamos e o que deveríamos ser. Sensiveis. Sinceros e belos. Por isso lastimamos tanto. Quanto ao futuro? Não me preocupa. Preocupa-me esse passado mal passado. Sangra a carne vermelha de sangue. Acho que gosto das coisas assim. Só vou evitar a carne excessiva. Dar mordidas menores. Agora me lembro do mordida: “você deixou saudades, por aqui”. “Uma flor em pedaços, no jardim”.
Eu não tenho mais lágrimas, mas ainda tenho a presença. Gosto disso, acho. Tem que ser homem mesmo. Embora sejam raras as ocasiões que consegui. A presença é a autenticidade. Coisa rara meu querido amigo. Nós a temos e temos de sobra. Alguién quiere? OÔôôôÔ. É facil ter. Difícil é ter.
Estamos aqui pro que der e vier. O carinho nunca será ausente. Nem presente. Nem lembrança. É real e não é coletivo. Eita. Sempre assim. É sempre igual. Tudo não passa de passado. Tudo só fica se for lembrança. Felicidade é utopia. No no no alegria.
Uma piscadinha pra tu.

Esta é uma nota de agradecimento.

8.9.08

Só isso

Eu temo o fim. O fim é como a morte. Sempre inexplicavel. E o meu reflexo volta a ser meu eu refletido. Já não darei um falso futuro a cada vislumbre de instantes. Partirei para o meu interior numa excursão de eus que andam vagando sem direção. Juntei-os todos e vamos passear nessa alma mórbida que compõe o meu ser. Eu não me sinto triste. A tristeza já passou. Não me sinto alegre. Me sinto aliviada. Não mereço ter. Mereço ser e devo fazer isso mais bem feito. No never posses. É que confundo as coisas e quando vejo, eu erro, mas erro com intençao de acertar. Me culparia se não fosse assim. Ora não me culpo por tentar. Eu temo o fim, mas ele chega finalmente e para de ensaiar. Agora tem platéia. Platéia que aplaudirá muito. Isso é gratificante para um ator. Um ator na arte de atuar na vida. E os ultimos passos se fazem dança. Se não emocionou, talvez é porque não tenha valido nada. Eu me despeço com lágrimas e guardo comigo a verdade, na qual quase ninguem pode acreditar. Porque só são mentirosos para a vida aqueles que carregam nela a verdade. Eu queria iniciar e quebrar o enigma das coisas. Mas a força não estava na mão, estava apenas nos dedos. Leve-os contigo. Eu agora sou só e assim quero ser. Afastem-se todos. Não há mais valor.

3.9.08

PEDIDO DE ETERNIDADE

A sorte grande da vida sai somente aos que a compram por acaso. Não há destino, há merecimentos. Não sei quantos terão contemplado, merecidamente, o amor verdadeiro. Incondicional. Eu não acreditava nisso. Uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro. Há dias que sobe em mim uma vontade imensa de viver, de cultivar e de planejar. Só não me é insuportável porque de fato estou apreciando suportar. É um estrangulamento do passado e do futuro. Uma breve noticia de que tudo começou. Por degraus de sonhos e cansaços meus você me traz a sua irrealidade, desce e substitui o meu mundo. Eu não sonho possuir teu corpo. Isso seria banal demais. Sonho os momentos. Como se nosso amor fosse uma oração. Meus tédios serão padre-nossos e minhas angustias ave-marias. Entre nós existem sombras cujos passos soam frios. É a humanidade. Como vitrais um em frente ao outro. Homem e mulher. Vitrais eternos. Podemos ser pintados por qualquer artista que dorme sob um tumulo godo onde dois anjos de mãos postas gelam em marmore a ideia de morte. O que sonhamos é verdadeiramente o que somos. Por isso nunca me sinto tão proxima da verdade. Apenas num livro, circo, teatro, filme e ao seu lado meu menino. A mais vil de todas as necessidades: a da confidência, a da confissão. A necessidade da alma ser exterior. É por isso que você se tornou o pai e o marido. É por isso tudo que hoje dividimos nossa vida e ganhamos outra vida e outras que ainda virão. Eu encontrei a pessoa com que eu quero dividir. Eu amo você.

25.8.08

A flor do dia

As pegadas pareciam lentas demais para quem tem pressa de sentir as coisas. Afinal ela era uma flor, mas não fazia parte das espécies raras. Não possuía quase fragrância alguma. Vinha em uma única cor. Mas era uma flor e nisso acreditava. Sentia o orvalho das manhãs. Encolhia-se perante o poderoso sol. E sorria a brisa noturna. Era sua preferida. Porque ela vinha mansa.
Às vezes, porém, temia a alegria. De tão normal que era. Era e não sabia. Suas narinas aspiravam, nunca o pólen alheio. Também era única nas suas milhares semelhantes. Pois sofria calada a dor de estar viva durante o dia.
Foi um dia desses. Um cavalheiro se aproximou. Dom Quixote urbano. Parece praxe. Deu uma fungadinha tão bem dada que sentiu o perfume que nunca existira. Suspiros. Ela não queria. O dia.
Isso era a flor. Tem gente diferente. Que prefere ser igual. Ser loucura do que se sente.
Uma imagem de santo que permanece indiferente a tudo e a todos que ali imploram. Um café mais puro para madame. Um tostão para o falido. Uma prece por que prece se pede quem é religioso. Glórias. Améns e bênçãos. A benção pra todo mundo. Aí vem a donzela. Queria eu ser donzela. E pede uma flor. Ai ai ai ai. Vem bem pra ela a flor sem cor que prefere a noite. Estraga tudo. Ou será que o santo acertou na reza e cumpriu seu dever? Deveras.
Todos choramos a vida.

18.8.08

uai

O sexo se faz é com a cabeça. Esqueça.

História histérica

Eu tomava aquela gelatina aguada. Quase em gosto. Nem todas as festas são agradáveis. Têm as infantis. Essa não provocava risos. DesGOSTO. Na mesa as recordações vinham em preto e branco. Nostalgia do passado-futuro. Cor-de-rosa é o pior. Odeio. Acho graça. Coisa de louco mesmo.Tenho pensado muito na impetulância das pessoas. Já havia percebido que o escorregador era estreito e a balança baixa demais. Só que sempre insisto. E de tanto que insisto, Desisto. Descubro a vida cena por cena. Já vivi muito mais que deveria. Isso me enobrece e empobrece. Lentamente percebo. A evolução. Dos fatos à ilusão. Se rimou não foi porque quis. Não admiro as rimas. Fôrmas. Técnica. Prefiro que o baralho esteja embaralhado. Revelaão invisível. Surpresa! Você venceu. Matou 5. Feriu 30. Salvou 3. Eram da sua familia. Familia em primeiro lugar. São seus verdadeiros... E lá vem o fim do sermão. Vamos todos embora. Cabisbaixo. Ufa. As vezes sufoca. Não tenho paciência mesmo. Pego na sua mão e sigo assim mesmo. Feliz para sempre no catelo da dor. Se dói é porque se sente. Isso deve ter algum valor. Então, Adeus.

5.8.08

Tecido Penumbroso

Como posso sofrer porque as coisas pararam? Elas andaram tão estouvadas! Por que não deixá-las dormir agora um pouco? Tudo se aquietou, é noite, o mundo vive pra dentro, cegando-se ao sol do sonho. Preciso um pouco desse conteúdo inóspito, ermo como um quase-nada. Não, não é morte, é uma espécie de lacuna essencial, sem a aparência eterna do mármore, ou, por outro lado, sem as inscrições carcomidas. Pode-se respirar também na contra-vida. Depois então a gente volta para o ritmo; aí já não nos reconheceremos ao espelho explícito, tamanha a qualidade desse tecido penumbroso que provamos.

João Gilberto Noll,
inspiradíssimo em Mínimos, múltiplos, comuns.

27.7.08

FAEL

O tempo anda mais curto, me parece. Eu peguei um trem. Estava escrito: destino incerto. Subi nele, pra variar. Foi quando cheguei à conclusão que de tão irracional, tão irracional, tudo se tornara racional demais e... E eu tropecei e estava prestes a cair no abismo quando uma mão me segurou e disse: não há necessidade de se jogar, não comigo. "Eu tenho asas". Se penso choro. Lágrimas de sorvete. Carvão gelado esse. Bem nesse instante vejo as provas a serem corrigidas. Você não é o culpado disso. A contemplação dos momentos e lembranças não me permite. As vezes quero fugir. Porque tudo isso é demais para mim. Não capto. Não temo, mas sofro. Calada. Acho que não sei ser feliz. Melancolia bucólica. Ele me decifra. Me conhece tanto em tão pouco. É o simples. Simplicidade exagerada. E quando amanhece o dia tudo se torna ambiguamente claro. Eu adoro. Adoro. Sei lá. Foi assim. Assim será. Não espero nada. Nem remarei. Meus braços são fracos. A correnteza nos guiará. O vento. As chuvas todas. Quanto granizo. E tudo vira ouro. E juntos somos riquíssimos. Milionários.

DISTRIBUIMOS MONEY: SOMEONE QUER?

O unico dinheiro limpo do mundo. pena que anda RARO. Raridades. Sebos. Antiquarios. Antiquados. Apaixonados.

JUST THAT.

Socorro!

Sou romantica...

16.7.08

De olhos bem fechados

Uma piscadinha de canto

Um cano furado. Escapamento. Cheiro horrível que se espalha no ambiente, sufoca. Foi assim que aqueles olhos tentaram se distanciar. Não que não queriam ver. Absolutamente. Não queriam sentir. Aí as pupilas dilatam, a pálpebra amolece e os olhos quase quase se fecham. Sentem tanto sono. Normal. A vida anda cansativa para todos, inclusive para os olhos. Se pudessem talvez enxergar as coisas na sua forma real. Mas ficam vendo tudo invertido. E acabam sentindo tudo invertido. E confundem constantemente a realidade. O óbvio. Ócio.
Hoje eles resolveram se maquiar. Com a maquiagem pareceram mais bonitos, alegres. Um rosa suave se enfumaçava com o vermelho sangue e o lápis preto. Lindo! Sensual.
Olhos grandes, olhos pequenos. Olhos interrogativos. Fontes de expressão. O canal das lágrimas.
Aqueles olhos saíram para o mundo. Escolhiam bem o que enxergar. Brilhavam de vez em quando. E nunca deixaram de te imaginar.

11.7.08

CATARRO

Tudo pesa para os olhos que não valem ouro. São pilhas de madeiras empilhadas de forma desigual. Caem sempre quando ficam altas. Mas como uma girafa estica seu pescoço comprido e dialóga com as estrelas:

- Pois bem, ando farta de reclamações.

- Você está reclamando das reclamações.

- É verdade. Desculpe.

- Desculpada.

Depois se abaixa bem abaixada para que ninguém possa ver. E se cala. No mais puro silêncio não enxerga seu orgulho. Se sente humilde no seu hedonismo.

Se for feliz assim até vale. Mas, é?

10.7.08

O USO DAS PALAVRAS OBSCENAS

"Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodidor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: bem.
Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso."

Bertolt Brecht

15.6.08

Estudo, Criatividade, e Sabedoria Humilde

"Descobrirás que não és a primeira pessoa a quem o comportamento humano alguma vez perturbou, assustou ou mesmo enojou. Não estás de modo nenhum sozinho nesse ponto, e isso deve servir-te de incitamento e de estímulo. Muitos, muitos homens se sentiram tão perturbados, moralmente e espiritualmente, como tu estás agora. Felizmente, alguns deles deixaram memórias dessa perturbação. Hás-de aprender com eles... se quiseres aprender. Tal como um dia, se tiveres alguma coisa para dar, alguém há-de aprender contigo. É um belo tratado de reciprocidade. E isto não é instrução. É história. É poesia.

(...) Não estou a tentar dizer-te que só os homens instruídos e com estudos estão preparados para dar alguma coisa ao mundo. Não é verdade. Mas afirmo que os homens instruídos e com estudos, se, para começar, forem inteligentes e criativos, o que infelizmente, raramente acontece, tendem a deixar atrás deles memórias mais valiosas do que os homens simplesmente brilhantes e criativos. Tendem a exprimir-se mais claramente, e normalmente têm a paixão de seguir os seus próprios pensamentos até ao fim. E, o que é mais importante, nove em cada dez vezes são mais humildes do que os pensadores sem estudos. "


J.D.Salinger, in 'À Espera no Centeio'

13.6.08

Somethings...

"Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato."

Lewis Carroll

11.6.08

http://www.mosquitosnyc.com/

ONE (Banda Mosquitos)

One, one more day
Of this sweet sunshine
Making me feel nice

One, one more night
Underneath the stars
Underneath the moon light

But we looked,
And we dreamed
And we followed
And we laughed in our sleep
About tomorrow
Cause we know...

That we got one more life
We fucked up this time around
Now we’re going back to the ground

One more dream
The last one came true
And we still don’t know what to do

But we looked,
And we dreamed
And we followed
And we laughed in our sleep
About tomorrow
Cause we know...

That we got one...

9.6.08

O VELHO PEDÓFILO

Embora ela não tenha quatro anos. Anda batendo palmas para a vida. Levou um tiro de canhão. Nossa, um rombo imenso. Até que ficou bacana no seu corpo. Eu acho. Percorreu quilomêtros centímetros por horas segundos. Ainda assim ela se mantém em pé. Com longos sapatos de bico fino e saltos altos. Só os tira em sua casa. Lá ela percorre livre. Lá sim. Pois é. Aquela felicidade utópica inexistente anda batento nos seus olhinhos. Acho que foram as palavras. As palavras são sempre cumplices. São sempre pertinentes. E por um fio invisivel ligado de poste em poste ela se conectou num afeto instantâneo. Leite em pó. Quick de morango. Xarope de Groselha. Foi quando sua boca percebeu que ele parecia muito, mas não era um menino. É, isso é muito difícil e muito simples. A respiração até trava em certos momentos. Os pensamentos se transformam em reticêncas. --Foi você quem me disse isso. Tomo suas palavras. Junto com seus beijos -- diz a menina. Agora ela se tornou uma mulher contemplativa. Ainda não tem certeza se isso há faz bem ou não. Não por medo. Nem receio. Acho que por orgulho. Sarcasmo talvez boy. E se o termometro quebrar? Não terá volta. Ele é um pedófilo. Nossa. Isso deve ser complicado. Não mais.
Peraí. Não confunda as coisas garotinha. A vida lhe traçou um destino incerto. Areia movediça. Seus passos devem ser leves. Assim como na música, lembra?

Aí ela parou o carro. Aí ela parou o tempo.

Narrativa burlesca agora.

Vou deixar este capítulo para os dois. Eu não tenho certezas. Nem verdades. Nem destreza com esse tipo de descrição. Não por timidez não. Por que seria mais facil pintar um quadro. Ou olhar num espelho, quem sabe.

Abro um parenteses. Ela sonha em descer as meias finas. Descosturar suas veias. Se deliciar com os prazeres da carne. Assim como os da mesa. Aguarda a muqueca prometida. Ainda que a fome tenha se esgotado e dado um espaço para coisas muito mais piegas.

A menina e o velho.

Ela trocaria minutos com ele por anos da sua vida. Sabia?

5.6.08

O MESMO

A ilusão é colorida?!
Nos encanamentos correm lagrimas?!
O cheiro se espalha?!
As pessoas se esquecem?!
Tentação dá prazer?!
São todos humanos?!

A saudade é eterna?!
É passiva?!
É ativa?!
É ignorância?!
É piedade?!

Um momento dura tanto tempo?!
Um tempo dura tão pouco momento?!

UM ELEFANTE INCOMODA MUITA GENTE

27.5.08

TROPEÇOS

Quando você se dispõe ao amor você está se jogando em um precipício. E amar é cair. Cada vez mais fundo. Você confunde e pensa que está voando. E voa mesmo. Em direção ao fim. Do buraco. Tem gente que se joga em grandes precipicios. Outros só pulam em buraquinhos. Outros ainda passam a vida inteira se jogando em vários. Ou pulam eternamente no mesmo. Tem gente que anda em linha reta. Passa por ponteS. Olha para baixo mas não sai da linha. Tem gente que fica parada. Nem se move. Outros saltam muito mais alto. Uns caem de cabeça. Uns de ponta, hahahaha. Salto bombinha. Saltitantes. Quicam. Rolam.

Eu escalo. Tu escalas. Ele escala. Nós...

20.5.08

AÇÃO E REAÇÃO

Amantes da loucura. Nos olhos só. Corriam riam e iam. Os postes da rua. São tantos. Interligados, levam energia aos lares fechados. Olhando mais adiante dava para observar o movimento simétrico das pernas. E se os fito. Renegam-me. Renegando-me me regenero. Quando o sol bate na cara não se pode analisar o mundo. Se só. Somos pó. Se pó. É melhor não ser como se é. Uma cachoeira no quintal de casa. A música é sempre abstrata. No concreto do concreto tem muito cimento para carregar. No início cansa. Mas depois acostuma. A vida fica mais fácil. Mas têm prédios que não desabam. Meio ilusão isso. Aposto que não lhes restam nem escadas. Aparência. Estética. Estética? A estética do saber do sabido que soube que era sustenido e ficou triste no seu canto e não percebeu que poderia ser feliz ao lado daquele videogame. Coitado. Descanse em paz. Agora as cortinas sempre estarão fechadas. Mas lembre-se que ainda tem vida por aqui. É fachada. Assim ninguém me vê. Assim. Mais vale na vida ser mendigo. Esperar o tempo. Os prazeres da vida são tão caros. Morrerei com todos eles. Espero-lhe. Maldita culpa que nos fazem carregar. O amor é a grande perda de tudo o mais. Só os fracos o permitem. Vou correr. Entrar em forma. Antes que seja tarde. Que tal uma cerveja? Dá barriga. Daí não adiantaria o exercicío. Rezai-vos todos os dias e não temereis. Nem todo barco é verde. Compreendeu? Não? Então cala a tua boca. E outros orifícios mais...

17.5.08

Ontem

Esfreguei os olhos remelosos. Eram 7 horas da manhã. Não queria ver a luz. Mas não tive escolha. Acho que já devem estar desconfiados de mim. Ninguém pode representar a vida toda. Talvez sim. Faço por engolir essas observações. Que fique claro, então. Assim convenço, parcialmente. Basta-me. O fato é que hoje eu não queria acordar. Prolonguei o pensamento e não consegui nem sequer tomar meu café diário matinal. Arranquei os dentes da ponta do cigarro. Até o fumo me consumia. Nada. Eu não queria nada. E me sobrou à responsabilidade, a rotina e a dor. Confesso que ando exausta de ser triste. Não que tenha gosto pela felicidade. Tenho outros objetivos. Só que o problema era mais profundo. Descia nas veias, percorria os ossos e ficava impregnado na pele como um parasita incontrolável que me tirara o entusiasmo. O entusiasmo não tem nada haver com meu caráter. Embora você pense assim. Momento crítico. O pânico me domina. Tento recapitular os acontecimentos não achar razões. Não dá. O cérebro já está por demais fatigado. Estou gripada e não paro de assuar o nariz. Nunca tinha pensado em tal coisa. O que deve ser bom ou mal para mim. Tomo o que me aparece no caminho e faço disso o melhor uso. Não cultivo tais pessoas deliberadamente. Confesso que elas me atraem. Mas eu também sou por elas atraído. Sei de uma coisa. Não podemos contar com as pessoas. Triste. Estou triste. O olhar concentrado não trás respostas. Ponho-me a trabalhar. Até posso dar gargalhadas. Voluntárias. Espero o dia.

16.5.08

RECEITAS ANTITÉDIO por Hilda Hilst

(segunda-feira, 22 de fevereiro de 1993).

Pequenas sugestões e receitas do espanto antitedio para senhores e donas de casa durante o carnaval.

I.
Pegue um nabo. Coloque duas ou três palavras dentro dele, por exemplo: bastão, ouro, amplidão. Chacoalhe. Você não vai ouvir ruído algum. É normal. Ai ajoelhe-se com o nabo na mão e diga:
“Com o bastão que me foi dado
Com o ouro que me foi tirado
E sem nenhuma amplidão
De conceitos e dados
Quero nascer brasileiro
E poeta.”
Quem te ouvir vai ficar besta.

II.
Coalha um pé de couve e dois repolhos. Embrulhe-os. Faça as malas e atravesse a fronteira. Ta na hora.

III.
Pergunte ao seu filhinho se ele quer laranja descascada de tampinha ou de gomo. Se ele disser que quer laranja descascada de tampinha, diga que um menino bem educado sempre escolhe a de gomo. Se ele começar a chorar, chupe você a laranja. De tampinha, naturalmente.

IV.
Enfeite a mesa com flores. Compre um peru. Feche as crianças no banheiro. Antes de começar a ceia, convide seu marido para dançar ao redor da mesa (não mexa com o Peru). Inopinadamente pergunte se ele gosta de trufas. Se ele disser que sim, gargalhe algum tempo atrás da porta e diga que “trufas não tem não, amorzinho”.

V.
Compre manteiga. Passe-a nos dedos (esqueça Marlon Brando). Chupe-os. E diga em tom de oração: Que vida solitária, meu Deus! (Contenha-se).

VI.
Compre uma língua de tucano (é uma umbelífera), uma língua de vaca (Chaptalia nutans é seu nome cientifico), um lírio branco (Lilium candidum), dois caquis (não é cáqui, não vá comprar o brim da cor dos caquis), ferva durante cinco minutos. Depois jogue fora, olhando para o alto. É uma simpatia para você não dormir.

VII.
Corte um saco em pequenos pedaços. Um de estopa, evidente. Embrulhe vários ovos, um por um, em cada pequeno pedaço de estopa. Pinte caras descarnadas, dentes pontudos e beiços vermelhos na cara dos ovos (sempre esses de galinha ou de pato, é desses que eu estou falando). Quando alguma das tuas crianças começar a pedir aquelas coisas caríssimas e imbecis que são sugeridas na televisão, cubra-se de negro a noite, use tintas fosforescentes para ressaltar a cara dos ovos (aqueles) e quebre-os um a um nas pequeninas cabeças dizendo com voz rouca: parem de pedir coisas impossíveis a sua mãe, seus canalhas!

VIII.
(Se você for PhD, leia até o fim. Se não, pule esta).
Faca um buque de orelhas. É fácil. Peça apenas uma a cada um de seus dez amigos íntimos. Diga-lhes que é para uma causa nobre. Se perguntarem qual causa (não confundir com Cáucaso, é outra coisa), diga que você precisa mandar o buque para tua velha e querida preceptora inglesa (quando você tinha quinze anos, lembra-se?), que arrancou as tuas duas porque você insistiu inquebrantável durante doze horas seguidas que aquela primeira frase de Marco Antonio para o povão era, na “tua” tradução, “Emprestai-me vossas orelhas”. Todos concordarão, acredite, com o teu pedido. Ainda mais porque todo mundo sabe que “Lend me your ears” quer dizer isso mesmo.

IX.
Se você quer se matar porque o país está podre, e você quase, pegue uma pedrinha de canfora e uma lata de caviar e coloque ao lado seu revólver. Em seguida, coloque a pedrinha de cânfora debaixo da língua e olhe fixamente para a lata de caviar. Só então engatilhe o revólver. (É bom partir com olorosas e elegantes lembranças. Atenção: não de um tiro na boca porque a pedrinha de canfora se estilhaça).

9.5.08

Mais Hilda...

Trecho de

Axelrod (da proporção)
de Hilda Hilst

(Sugestão: leia este texto ouvindo um som mântrico qualquer, um que lhe coloque em transe.)


Unir-se, Axelrod, unir-se a alguém, é disso que precisas. A quem? À História? Como se ela fosse alguém essa falada História, penugenta andando por aí, como se ela fosse real, olha aí a História, tá passando aí, olha pra ela, olha a História te engolindo, jantas hoje com a História, os filhinhos da História, Marat marx mao, o primeiro homicida, o segundo tantas coisas humanista sociólogo economista agitador, ó tão fundo esse segundo, tão História tão Estado. E que terceiro, ó gente, que terceiro.

já leu Marx?

maçante aquilo tudo

mas leu?

sim, o que pude conseguir, as cartas aos amigos dizem mais dele do que tudo

que límpido ordenado, que precisões hen? liberdade pra quê? liberdade têm os outros de te montar em cima, de te arrancarem o naco de carne da boca, tens medo de que te tirem o quê se não tens nada?

Marx meu amor, te amei tão História, Mao e Shu vocês também, que soerguido vital, que caminhadas que floração, que linguagem, e fui relendo, anotando, cintilantes esquemas, destrinchações, como se eu fosse jantar com a História logo mais, como se eu fosse meter com a História, as pernocas abertas da História, as coxonas cozidas de tão faladas, o vaginão da História, vermelhusco, baboso, e o meu fiapo magro nadando lá por dentro

já leu tudo, menino? já sabe tudo de mim, como me fiz, o que sou?

sim dona História

viu que gente de primeira já andou por aí?

sim dona História

e que sangueira hen filho? Que linguagens, que porte, que pompas

Vou entrando na História, endurecendo, vou morrendo explodindo em faíscas, a cavernosa vai me comendo, ímã gozoso, já não sou Axelrod Silva, sou nomes, fachadas, sou máscara, já não penso, pensam por mim, sou credo, sou catecismo, sou bandeira, sou acorde, sou principalmente Político, o peito teso empinado, tenho idéias mas já não sou Axelrod Silva, tudo o que quiserdes, menos eu, a História me chupa inteiro, a língua porejando sangue

goza filhinho

sim dona História, vou indo, estou cheio de idéias, tenho dúvidas, tenho gozos rápidos e agudos, vou te apalpando agora, o povo me olha, o povo quer muito de mim, gosto do povo, devo ser o povo, devo ser um único e harmônico povo-ovo, devo morrer pelo povo, adentrado nele, devo rugir e ser um só com o povo, Axelrod-povo, Axelrod-coesão, virulência, Axelrod-filho do povo, HISTÓRIA/POVO, janto com meus pais, sopa de proletariado, pãezinhos mencheviques, engulo o monopólio, emocionado bebo a revolução, lento vou digerindo o intelecto, mas estou faminto, estarei sempre faminto, cago capitalismo, o lucro, a bolsa de títulos, e ainda estou faminto, ô meu deus, eu me quero a mim, ossudo seco, eu.

doutor, o trem tá parando, vai parar aqui um pouco.

chegamos?

imagine doutor, ainda falta, o senhor está suando muito, quer um refresco? posso ajudá-lo?

vai para aqui?

uma boiada, e ao mesmo tempo uns enguiços na máquina, uma hora talvez, não mais

devo descer então?

esticar as pernas doutor, é melhor, o senhor está suando muito, uma mancha vermelha aí

onde?

na sua testa, dormiu de mau jeito, não foi? a testa encostou nesse duro da madeira, não foi?

Vermelhosuras da História, devo descer mas ela não me larga, grudou-se, chutar a cabeça da História, chutar a bola-cabeça em direção à trave, também joguei sim senhores, joguei, ia chutando a cabeça de muitos naquela única bola, esfacelei uns branquicentos moles, a mim mesmo chutei, chutei minha comensurabilidade, meu limite, meu finito fibroso, minha putrescível cabeça, minha vermelha dura fixa cabeça, ah um ocre que vi e não me esqueço, num canto a parede rebrilhava num branco exibido obsceno e no canto aquele ocre, esqueceram-se, eu perguntei, esqueceram-se de pintar aquilo ali? Aquilo onde? cruzes, cara, aquele ocre ali, olhavam-me, não viam ocre algum, ah mas que ocre, senhores, que ocre, como a fundura de um peixe, escamas ocres lá no fundo, como certos chamalotes, um vermelho-ocre tafetoso, uns estilhados de ruído, aquele ocre ali, que fogaço mínimo, mas que luz a luz daquele ocre. Devo suportar o que me vem, vem vindo, minha cabeça de laca, de sangue esmaltado, efêmero tu mínimo, Axelrod, habitante de um planeta mínimo, bola planeta de uma risível estrela desta Via, lactente pequenino se pensando inchado em abastança, ridículo pequenino abasbacado, laca diluída nas tuas veias, coágulos, então Axelrod te moves quando pensas? ou circulas no teu ridículo espaço com a pompa dos pavões, o peito purgando adjetivos, togado, promotor, te acuso Axelrod Silva de se supor a si mesmo um pretenso diferenciado

de fornicar a História com teu magro minguado. Te acuso de indecências, de pensamenteios, de friorentas idéias, nunca te moverás, maquinista do Nada.

podemos descer juntos, o senhor quer? há uma colina mais adiante e abetos

como?

não nada, sim, pode ser bom caminhar até a colina.

foi isso que pensei, andar um pouco enquanto o trem, olhe, acenderam as luzes, podemos ver o trem de longe iluminado.

Esguio, de passadas lentas, a nuca magra, o olhar é de um cinzento alagado, tenso de ombro e omoplata, discorre pausado de topografias, que à nossa frente, esta, se parece a outras que já viu mas não se lembra onde, que viu tão pouco de tudo e que por isso deveria lembrar-se desse pouco onde, olhe ali, há queimadas, se não vou me cansar até o pequeno topo, não não, imagine eu digo, também nem tanto, quarenta e dois anos ainda suportam um passeio na tarde, e há esse frescor, esse caimento, o cheiro dos abetos. Como? O cheiro desses verdes, ah sim, parecem estranhos, o mundo também, a forma das coisas, é um gavião lá no alto? Sim, pode ser, e me diz que nào quis dizer que eu lhe parecia velho, que nem pensou nisso quando perguntou se eu não cansaria até o pequeno topo, digo que não me importo com esses luxos da idade, que aos vinte temos muitas certezas e depois só dúvidas.

certeza de nada eu tenho

exceção. Aos vinte pontifiquei, tinha um orgulho danado, um visual pretensamente sábio

como?

discorria claro sobre as coisas, pensava que via

o senhor é professor?

sim, História

Apressado me interrompe, entre eu e ele um espêsso, porque me interrompe? entre eu e ele uns afastados, parece desejar chegar ao topo, sim porque deve ser bonito ver o trem lá embaixo iluminado, da História diz que não sabe nada, da sua própria estória sim, começa a correr como se me esquecesse, bem assim também não, correr na subida já maltrata coronárias coração, escuto-lhe a risada quinze passos acima, vejo-o de frente, longo, um nítido de sol numa das faces, não, não devo subir mais, o espesso desmanchando-se, está vivo à minha frente como se fosse o primeiro vivo visto, digo que o moço está tão vivo e tão adequado àquele espaço, tão singularmente colocado que

vamos, venha, ou desço para te ajudar?

Desço para te ajudar, íntimo, caloroso, estendeu os braços, amplo, lento pensando o passo vou subindo, o visível pensado me diz que há um medo se construindo em suor e vazios, o visível pensado não nomeia este medo, não deveria subir mas vou subindo, amasso com meus pés os tufos verdes, fixo-me nos sapatos, moles, úmidos, as meias molhadas, um ridículo Gólgota, sorrio, falta um, não deveriam ser três? Ele e os dois, e faltam cruzes, os dois viram-no subir lá do alto das cruzes? E faz falta a multidão, os lamentos, e a hora da subida não foi esta, subiu a que hora Jeshua? ao meio-dia? A hora, seis e meia a minha, ridiculez de subida, a camisa empapada, tenho cheiros? cheiro como um homem, aprumo-me, sou um home, tropeço, estou de bruços, de bruços pronto para ser usado, saqueado, ajustado à minha latinidade, esta sim, real, esta de bruços, as incontáveis infinitas cósmicas fornicações em toda a minha brasilidade, eu de bruços vilipendiado, mil duros no meu acósmico buraco, entregando tudo, meus ricos fundos de dentro, minha alma, ah muito conforme seo Silva, muitíssimo adequado tu de bruços, e no aparente arrotando grosso, chutando a bola, cantando, te chamam de bundeiro os ricos lá de fora seo Silva brasileiro, seo Macho Silva, hôhô hôhô enquanto fornicas bundeiramente as tuas mulheres cantando chutando a bola, que pepinão seo Silva na tua rodela, tuas pobres junturas se rompendo, entregando teu ferro, teu sangue, tua cabeça, amoitado, às apalpadelas, meio cego cedendo, cedendo sempre, ah Grande Saqueado, grande pobre macho saqueado, de bruços, de joelhos, há quanto tempo cedendo e disfarçando, vítima verde amarela, amado macho inteiro de bruços flexionado, de quatro, multiplicado de vazios, de ais, de multi-irracionais, boca de miséria, me exteriorizo grudado à minha História, ela me engolindo, eu engolido por todas as quimeras.

machucou-se

nem um pouco

Trêmulo me levantando, eu Axelrod me levantando porque o Grande Saqueado deixo ali de bruços, descola-te de mim, eu sozinho sou mínimo, alavancas do sonho, as impossíveis para te levantar, idéias palavras abstrações textos dialéticas, impossíveis alavancas de sonhos impossíveis, beijo-te as nádegas, brasilíssima fundura, teus gordos aparentes, beijo lívido tua escura saqueada rodela, te pranteio

me dá tua mão Axel

A mão do moço, pesada, curta, seca, não está em emoção, a palma toca a minha, molhada, a voz num tom de sacristia, baixa respeitosa, me dá tua mão, Axel, (comeu-me o sufixo, não importa) talvez me veja um pouco abade, abacial, tenho ares de, apesar da magreza, abade Axelrod, ali vai Axel o abade, amanhã ventrudo, tropeçou, vê só, me dá a tua mão, Axel, que tons, como se os turíbulos tivessem passado há um segundo, como se eu lhe tivesse dado escapulários, obrigado abade Axel, posso lhe beijar a mão? Vou me levantando inteiro abade, curvado vou me fazendo, tento chamar a velhice, fazer ares de, quero ser velhíssimo neste instante, e agachado correndo, num urro senil estaco. E numa cambalhota despenco aqui de cima, nos ares,

morrendo, deste lado do abismo.

(...)

29.4.08

Hilda Hilst

E as vezes fico vazia. Leio Hilda. Outras horas estou cheia. Leio Hilda. Têm dias que acordo triste. Leio Hilda. Ontem andei eufórica. Li Hilda. Esses dias estava safada. Precisei da Hilda. Escrevi um texto. Me inspirei em Hilda. Hoje estou total Hilda. Pretendo um dia envelhecer. Envelhecer admirando Hilda. Valeu mulhé por ter publicado suas magnificas palavras. Quantas Hildas recatadas devem haver neste mundinho...

Tô Só

Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP


Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta

de azul

de berimbau

de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...

Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?

Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave

ave

moinho

e tudo mais serei

para que seja leve

meu passo

em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

28.4.08

TELETRANSPORTE

Os viajantes do mundo, que absorvem as vidas, que desenvolvem a arte, que plantam a música, que colhem chuvas. Os personagens do mundo.
Eu não acredito em tudo. Mas duvido pouco da imaginação.
Partindo do início, "eu faria tudo de novo". Quando entrei no "jardim de ilusões" eu ainda estava bêbada. Cansada. A espontaneidade da leitura me carregou para um circo de sentimentos reais. Palavras-picadeiros. Tudo muito cru. (ausência)
Menos líquida.
Não precisamos de muito para sermos muito?! Porque não somos muito.
Também fiquei contente por existir. Por não ser infeliz, oras.
Não saí da platéia até o fim da peça. Coisa rara. Eu repudio o teatro, mas me vi tão atriz. Melhor, espectadora. De sonhos. Ou fatos? Uau! "É domingo em mim", pensei. Neste momento, eu estava saindo da fila do banheiro e indo para fila do bar. Ironia. Outra coisa bacana demais.
Depois de atrasar por dois dias consecutivos no trabalho eu achei melhor seguir em frente. Fui até o fim. Que não é bem um fim. Talvez seja o começo.
Até aí os espelhos ainda não tinham me revelado a verdade.
Teriam poderes: as palavras, os personagens, o teatro ou o escritor? Eu preciso saber quem carregou a minha identidade. Original. Não posso esquecer. Eu também busco respostas.
Nas janelas e parapeitos, enquanto empurro a balança da praça e observo o fundo dos olhos da minha pequena, nos restos de folhas que apodrecem no gramado, na fina camada de pó encima do balcão da sala. Ou talvez no brilho do ouro do colar que espedacei. Ainda deve ter algum valor.
No entanto, você não citou você. (engulo seco) Admiro o silêncio da alma. Mas não acredito. Temo. Porém, me pus a acreditar. (fácil, fácil, mas não inocente, acho)
Muito linda é a autencidade. Demorei a perceber que era tudo assim mesmo como seria se não fosse. Caráter em caracteres. Eu passei a acreditar.


*Texto escrito depois da leitura do livro "Jardim de Ilusões", do amigo Édio Raniere.

24.4.08

Humana, desmaiada humana

A piedade sufoca. Dá náusea. Assim como a fraqueza. Têm pessoas que acham créditos na fraqueza. Não sei como. Isso me incomoda. Hoje, quase desintoxicada de vida, escrevo. Minhas mãos seguem linhas tortas. Sempre. Eu nunca sei onde as palavras vão parar. Elas fogem do meu controle. Controle esse que tenho pouco.
Sinto desejo de prazer quase todo o tempo. Esse me sobe à garganta. Em alguns segundos, vomito. A moral ou o desejo?
Os vícios são incontroláveis mesmo. A vida sadia vai para o ralo na mesma gorfada. “Gorfada”? (risos) Amor igual a nojo.
A água parada fedia. Acaba a vertigem da bondade. Atravesso o inverno. Páro na penteadeira. Cheia de espelhos. Abro a gaveta. Dois conhaques, por favor. Um com gelo. Assim eu encaro meus olhos com mais certezas. Feridos pela ingratidão. Cuspo no lixo ao lado. Porque mulher não cospe. Então que seja no lixo. Na mira. Tudo muito justo, não é meu irmão?
Sentei no chão. Conformada e cética. Não era nada. – Elevador!, gritou-lhe sua fada madrinha de longo vestido rosa. 3° andar. É o andar da dor. Sempre retorno. E sempre que retorno penso em ti. Hipocrisia minha comigo mesma. Ai, pleonasmos factuais.
Já estava empanturrada de tudo a essa hora do dia. Sua cadela roliça! Beatice da mente cristã.
Agora minha cabeça está nua. Vou tentar encontrar delicadeza em minh’alma. Fantasticar os acontecimentos. Coisa de coiseados. Etapas maduras da vida, dizem os mais ilusionados. Eu digo também. (besta) Me sinto uma vaca gigante e gorda ruminando no pasto. Logo me volto nobre, ofendida.

Viro de bruço, mas não se aproveite. Não vale a pena.

18.4.08

PAUSA DE MOMENTO

Disse-lhe: não desanime. Trocaram um aperto de mão e foram embora.
Encostou a cabeça na cama. Sentiu-se bem, mas estava mal.
Estava cheia de cicatrizes pelo corpo cansado.
Sorriu para sua própria figura e repetiu a si: ótimo!
Apanhou o livro e continuou sua leitura.
"Isto é para você, em especial... O homem não mudará nada do seu destino final, que é retornar, mais cedo ou mais tarde, à inconsciencia e ao sem forma."
Se pôs a rir (gargalhadas).
Pegou um chocolate, desembrulhou. Pegou um cigarro e foi até a janela.
Uma mordida, um trago. Sucessivamente.
Éramos apenas bons narradores, pensou.
Voltou à cama e continuou a leitura.
Desta vez mais atenta.

5.4.08

PARTE 2

Ela não tinha controle do que iria acontecer. Muito menos ele. Mas ainda não sabiam disso. Tudo parecia indiferente naquele momento.
Antes de mais nada o autor não poderia deixar de ressaltar que pouco sabe sobre as caracteristicas de seu personagem masculino.Vê-se que ele vem com uma dor e guarda um lado rancoroso e malvado, que não se expressa em seus atos ou em sua aparência. É alegre e inteligente. Alberto, se chama. Ela é cheia de extremismos. Foi cartomante na juventude. Aprendeu o equilibrio, mas ainda não sabe se equilibrar. Porém, sofre de melancolia. Escreve poesias nas horas vagas. Foi abandonada por seu amor (literalmente). Parece coisa de gente besta. Mas eu acredito que ela não seja. Melhor assim. Possui um senso estético aguçado, facil de perceber no seu gosto pelas artes.
Impulsos. Parecem que os dois são movidos a impulsos. Excrucitante! What the fuck is porra é isso?
Quase tudo que ela despreza num homem ele tinha. Mas nele pareciam vantagens. Engraçado. (silêncio) Essas carcteristicas contrárias acabavam por lhe dar tesão. Inexplicável. Para que o texto não se torne erótico, não é este o objetivo, voltaremos ao enredo chave.
Todos conversavam tranquilos sob a mesa e os longos papos. Melaine surtou. (sempre surta) Ah, Melaine era seu nome. Nomes, meros signos. Armadilhas da imaginação. Pois bem, ela pirou. Precisava fazer uma ligação. (estes fatos da vida de Melaine só se explicariam com um psicanalista, uma vez que ela tem fortes disturbios assossiados à problemas familiares grávissimos) Naquele lugar, há quilômetros da civilização, uma ligação era algo complicado. Mas ela quis realizar essa façanha e procurar um ponto que tivesse receptividade no aparelho celular. Não que ela seja presunçosa, mas é dificil de tirar de sua cabeça quando ela quer fazer alguma coisa. Teimosia de menina mimada. Coisa insuportável mesmo.
Foram caminhando até a porteira, há pouco mais de 600 metros de onde estavam. Melaine, Alberto e mais duas amigas, Sara e Clarice. É interessante falar de Clarice porque ela era a causa de muita coisa ali. Era ela quem havia apresentado Alberto a Melaine e programado o encontro. Havia muito tempo que ela tentava isso. Não sei bem ao certo o porque. Coisas de mulheres. Coisas de amigos. Tem pessoas que acreditam, talvez por bondade, talvez por interesse, talvez por superioridade, que podem se meter na vida dos outros. Dar arbitrios. Soou meio bruto isso. No caso de Clarice é a mais pura bondade. Ela é uma querida! Acredito que tem uma inteção pura de provocar momentos de prazer e reunir seus amigos. Em outras palavras. Seus amigos sempre lhe pedem para levar uma mulher e ou amiga para dar mais graça à essas reunioes. Nada mais. Não é de hoje que ela arma coisas deste tipo.
Enfim, estavamos rumo a porteira da chacará. Pegamos chuva. Andávamos sob uma escuridão quase total. Lua Nova. Melaine sentia um pouco de medo. Precaução seria mais correto. Chegaram no ultimo portão e nada de sinal no celular. Resolveram voltar. A chuva havia aumentado. Assim Melaine pegaria o carro e iria atras de sua tarefa estranha em algum ponto mais distante. Fazer uma ligação. Talvez há uns 2 quilometros dali. Em algum ponto onde as montanhas não interferissem. E foi o que fez.

PARTE 1

Tinha tomado banho. Levava um pequeno frasco de colônia na bolsa. Aroma agradável. Se misturava com o vapor da água. Cereja. O banheiro ficava no final do corredor. As paredes brancas e a pouca luz e o silêncio deixavam uma sensação de hospital. Caminhou até o ambiente onde todos estavam. Uma espécie de copa gigante. Churrasqueira. (estava se sentindo um pouco isolada, não tinha intimidade com as pessoas dali) Os quartos eram todos iguais. Uma cama simples de solteiro e um criado mudo, com uma vela e uma imagem de Cristo. Ela estava lá por acaso. Seus desejos não pareciam puritanos. O que tornava o local ainda mais excitante. As incertezas e um pocuo de timidez apimentavam o que estaria por vir. Ou ao menos o que era para ter acontecido. Por ora, pensou muitas vezes que não deveria estar naquele lugar. O que realmente a motivou a ir foram 3 grilos verdes. Superstições. A experiência sempre serve apenas para invalidar o dogma. Os pólos não se repelem, se atraem. E as coisas não são, acontecem.
Ela já o desejava muito antes. Nem mesmo o conhecia. Nem lembranças fisicas. Uma indução. Isso. E ele estava lá no meio de tantas outras pessoas. Conversava. Sorria. Comandava. Eram todos seus amigos. Aprisionados com imagens e lembranças do passado. Discutiam da infância a juventude modesta. Enquanto ela divagava na sua propria existencia (coisa que sempre a comoveu, visto que possui um sentimentalismo bizarro) e dançava na voz que para ela soava como uma música sensual. O desejo efêmero fascina a menina-mulher. Minuto. Segredo. Seus movimentos oscilam.
Ela era alta. Cabelos curtos. Olhar seguro. Mente insegura. Ele parece um garoto assustado, mas logo se vê que gosta do perigo. Enfrenta. Um homem com semblante de menino. (suspiro) Esbarravam-se. Quase diferentes. Possuem um fio de ligação que por instantes se rompe e volta a se ligar rapidinho. Ciclos humanos.
Até aí a ocasião não os havia favorecido juntos. Talvez individualmente. O fogo já não era mais certeiro.
Mas as histórias com final (sejam eles felizes ou tristes) não são as melhores. Nunca serão.
Eles estao todos sentados. Uns cigarros aproximam, descontraem. Aumenta a entonação. Cura um pouco. Sigam as coisas seus rumos. Se possivel.

Girl Anachronism

you can tell
from the scars on my arms
and cracks in my hips
and the dents in my car
and the blisters on my lips
that i'm not the carefullest of girls

you can tell
from the glass on the floor
and the strings that're breaking
and i keep on breaking more
and it looks like i am shaking
but it's just the temperature
and then again
if it were any colder i could disengage
if i were any older i could act my age
but i dont think that youd believe me
it's
not
the
way
i'm
meant
to
be
it's just the way the operation made me

and you can tell
from the state of my room
that they let me out too soon
and the pills that i ate
came a couple years too late
and ive got some issues to work through
there i go again
pretending to be you
make-believing
that i have a soul beneath the surface
trying to convince you
it was accidentally on purpose

i am not so serious
this passion is a plagiarism
i might join your century
but only on a rare occasion
i was taken out
before the labor pains set in and now
behold the world's worst accident
i am the girl anachronism

and you can tell
by the red in my eyes
and the bruises on my thighs
and the knots in my hair
and the bathtub full of flies
that i'm not right now at all
there i go again
pretending that i'll fall
don't call the doctors
cause they've seen it all before
they'll say just
let
her
crash
and
burn
she'll learn
the attention just encourages her

and you can tell
from the full-body cast
that i'm sorry that i asked
though you did everything you could
(like any decent person would)
but i might be catching so don't touch
you'll start believeing youre immune to gravity and stuff
don't get me wet
because the bandages will all come off

and you can tell
from the smoke at the stake
that the current state is critical
well it is the little things, for instance:
in the time it takes to break it she can make up ten excuses:
please excuse her for the day, its just the way the medication makes her...

i dont necessarily believe there is a cure for this
so i might join your century but only as a doubtful guest
i was too precarious removed as a caesarian
behold the worlds worst accident
I AM THE GIRL ANACHRONISM



THE DRESDEN DOLLS
(Amanda Palmer)

MADALENA EM CONTRIÇÃO

(Carlos Tê)

onde vais pelo passeio
diva de um casino em ruínas
onde vais num devaneio
de quem ateia mil e uma camas

deixas no ar ao passar
o perfume dos melodramas

és aquela que se despe
sem a mínima ciência, aquela
que se usa sem agitar
sem ter de fingir, fingir ternura

deixas no ar ao passar
o perfume dos melodramas

olha um fariseu a rondar a esquina
à tua procura
parece um cristo encoberto
de passo incerto
e o olhar baço de quem conhece o deserto
é um beija-flor nocturno
só quer chorar no teu regaço
não fiques arrependida
não lhe invejes a vida
ele vem do lado direito
onde há flores e casamentos
mas quanto amor imperfeito
há nesses perfeitos momentos

4.4.08

PEDIDO

Não vou beber
Vou viver o que é para ser vivido
Eu sei o quanto assusto
Eu ando assustada também
Há tempo
Há tempos tive que reconstruir meus sonhos
Me doe a cabeça muito mais que o coração (visão figurativa)
As pessoas são hedonistas, grande parte delas
Eu também queria ser
Porque eu sou alegre pela simples razão de ser assim
O que pesam as vezes são meus músculos
Me arrastam e não me permitem mais voar
Me livre do pecado
Eu te peço
Sem insistir
Amém

INSUFICIÊNCIA

Não te preocupes
Não te movas
Deixa cair teu corpo sobre o meu
E bebo-lhe a boca
Num beijo ancioso

Ia dizendo em voz baixa
quase um sussurro
Eu gostaria...

Ardente e suave
Quando coberta a noite
Vou me despir
Derrubando a ultima gota
do sangue do cordeiro

Então o desejo
puro
Se torna vulgar
A chama se apaga

Serena aurora
vê-se apenas inocentes
que tentam andar

Mas seus sonhos pesados
não são contos infantis
Vêm com menos deuses e mais diabos
A dor e a morte
lhe atraem

E o amor lhe é isso

Fascínio simples
Desejo cru
Vira de novo a flor
Fecham-se os medos

2.4.08

Confronto


Bateu Amor à porta da Loucura.
"Deixa-me entrar - pediu - sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão."

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar."

Carlos Drummond de Andrade (1902 ~ 1987)

Imagens: Hieronymus Bosch

(...)

Como gato, Nitchevo existia apenas num dos lados do tempo; e esse lado era bom. Não lhe podia ocorrer que um prisioneiro tentasse fugir das prisões do Texas e fosse abatido (e a fuga não era mais do que um sonho), que directores dessas prisões escrevessem breves cartas narrando o acontecimento, que capatazes resmungassem desdenhosamente nas costas de homens cujos dedos tremiam com medo de rerrar, que as rodas gritassem e fizessem estalar o chicote como o patrão. Nada disso lhe ocorria. Nem que os homens eram cegos que julgavam ver claramente as coisas, nem que Deus pudesse dar-se à bebida. Não, Nitchevo não sabia que este curioso acidente da matéria, a terra, girava perigosamente e que um dia qualquer, sem ninguém esperar, seria projectada pela excessiva energia da sua própria órbita, despedaçando-se em infinitos pedacinhos de desastre.


Tennessee Williams


(1911-1983)

25.3.08

Hasta luego!

Vou dar um tempo de blogui. To cansada de blogui. As pessoas pensam que eu sou eu aqui e aqui eu sou algo não alguém. Escrevo sem nexo, não descrevo com nexo. Não é um diário. São palavras. Podem ser relacionadas a muita coisa que vejo, que escuto, e até por vezes que sinto. Vou viver um pouco de realidade. Yeah! Roqui! Minha filha me chama, o mundo me quer e a vida clama: Juana, juana! Até mais blogui! Até semana que vem, eu não aguento ficar muito tempo longe das coisas nas quais me apego! Coisas.

Dentro do Tom

Sabe qual é meu vício hoje?

Eu me vicio. Atinjo o êxtase e me deprimo. Choro pelos cantos. Pelos excessos. Tudo vêm em mim numa dose extra. Mas com limite de durabilidade. E se agora lhe pareço feliz, amanhã não o serei. Ou serei. Ou vice-versa. Não se sabe. Busco drogas ilícitas, lícitas, novelas, chicletes, raivas, amores, conhecimento, esporte, diversão, música, sexo, arte, solidão. E acabado no vácuo com a idéia mais abstrata e retrógrada da humanidade: eu nada sei. (Melancolia?!) Não encontro meu maldito caminho, nem em ruelas, nem em estradas de diamantes. Nunca mais, penso. Nunca mais. "Ter nascido me estragou a saúde".
Finjimos viver, Finjo viver, Fujo viver. Personagens cotidianos. Assombrações.
Cheiro minhas lágrimas nada alucinógenas. Como a cocaína elas trazem uma dose de esperança. Ilusão. Me delicio com minhas lágrimas. Auto confiança. Consumismo. Fuck. O amor é um sentimento suicída.
"O que eu sinto não ajo. O que eu ajo não penso. O que eu penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e hajo como se entendesse." Agora me explica, o que eu tenho de tão diferente de você?
Eu queria um montão de coisas. Não as quero mais.

19.3.08

Been thinking of you

Sonhos asfixiados. Por oras e horas escolhemos o silêncio.

O que realmente me motivou a ir foram 3 grilos verdes. Superstições. A experiência sempre serve apenas para invalidar o dogma. Os pólos não se atraem, se repelem. E as coisas não são, acontecem.
Eu já o desejava muito antes. Nem mesmo o conhecia. Nem lembranças físicas. Uma indução. Isso. E ele estava lá no meio de tantas outras pessoas. Conversava. Sorria. Comandava. Eram todos seus amigos. Aprisionados com imagens e lembranças do passado.

O desejo efêmero fascina a menina-mulher. Minuto. Segredo. Seus movimentos oscilam.

Esbarravam-se. Quase diferentes. Possuem um fio de ligação que por instantes se rompe e volta a se ligar rapidinho. Ciclos humanos.

Até aí a ocasião não os havia favorecido juntos. Talvez individualmente. O fogo já não era mais certeiro.
Mas as histórias com final (sejam eles felizes ou tristes) não são as melhores. Nunca serão.

E aí num salto no escuro subimos à tona. E assim se segue.

Ah, o mar é imenso mesmo. A conquista sempre me fascinou.

Por ser um risco. A consciência precisa de nossos limites gera um conflito na carne humana. Tesão.

Há na paixão alguma coisa da solidão. Você sabe disso meu querido.

Quando o mundo é mais do que podemos imaginar ele sempre acaba parecendo superior a nós. Eis a maravilha da vida. Ou não.

Tremo trêmula. E tu tremes tremido.

Não quero deixar todas essas palavras soltas e sem conexão íntima. Vou tentar seguir o texto de forma mais coesa e com os pés na pontinha para não invadir sua obscuridade. Eu ergo a cabeça e observo a lua. Suas noites. Meus sonhos. No desejo do riso e do choro nos entrelaçamos no mesmo gozo-prazer. Para depois desencontrarmo-nos. Nossas casas são vazias. Quase nunca habitáveis. Por humanos. Apenas por personagens. Vou tentar ser mais imparcial para não avançar por oceanos que podem se transformar em trevas. Eu sou, sem ter consciência disso, uma armadilha. Aí encontro seus lábios e estou preste a beijá-los. Periclitante. Segredo. “Uma tensão na corda de violino” se estende até o dia seguinte. Numa irrealidade de desejos que tampouco desconhecemos. O tempo é indefinível. E no final nunca temos forças. Apenas seguimos adiante. Como se inventássemos um ao outro. Simplesmente nus. E juntos nos calamos, quando devemos nos calar. E nascemos novamente para nós. Coisa que não perturba. Uma linguagem muda.

Harmonia. Pressinto o instante. Acompanho o ritmo do tempo. E escuto tudo mais uma vez. Para ver se atinjo as mesmas sensações.

Você me torna varios segundos feliz.

17.3.08

Alcoólicas

Hilda Hilst


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)



* * *



Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

(Alcoólicas - II)



* * *



E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

(Alcoólicas - IV)



* * *



Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

(Alcoólicas - V)

14.3.08

10.3.08

ECOS

Como tu já sabes, amanhã não sei. Tive dias pesados. Agora, mais tranqüila espero. A essência. A essência das coisas nem sempre é o que pensamos. É o que agimos. Como deveríamos agir. Não quero que você leia meus textos como se fosse um leitor. Tome a liberdade de saber que é inspiração. A inspiração é misteriosa. Oscila. Cochila. Engana. De olhos fechados vejo o beijo, a boca carnuda. Êxtase. E quando abro, os olhos, se acaba na verdade. Maniqueísta. As coisas são estranhas e divertidas. A vida, bizarra. (risadas) Hoje apanhei uma surpresa, 2. Pessoas machucam, pessoas curam. Pude me sentir muito melhor com a tua presença. Ouvi dizer uma coisa sobre ecos. Desconexo. O que a gente espera realmente não alcança. Preciso arar a terra. Incomoda-me muito uma coisa sua. Você desconhece-se. Pode ser engano meu. Eu também sofro com a duvida. Meu teu nosso auto reflexo. Fiquei confusa só de pensar. Porque pensamos? Será isso. Vou subir no barco again again again. Sem expectativas de nada. Acreditando somente no que sinto. Nos sentimentos. Sinto muito, sinto saudades. Mas tenho que me livrar da ancora. Agora sim posso seguir meu rumo, se possível. As lembranças lindas, ficarão. Minha flor está se recuperando. Preciso cuidar dela. Mas antes e por fim, não estendas o braço. Fique onde está. Um dia, irei te encontrar. O tempo não corrige, o tempo passa, faz um vento danado e apaga. (choro de triste) Você sabe de tudo meu anjo. Eu sei de tudo. É cinta-liga babe. Aperta, mas dá prazer. Ainda lembro de seus versos. Espero tê-los comigo. Beijos. Beijos ofegantes.

“A luz no fim do túnel é um trem vindo na minha direção...”

Às vezes passamos dia e semanas inteiras sem que aconteça nada não habitual. São períodos vazios de histórias e emoções. E a vida se resume a dia após dia. A pessoa meio que enferrujada observa o seu redor. Rouba as emoções. Lê. Escreve. Murcha.
Pode ser bom. Quem sabe.
Longas cenas não me atraem. Talvez pela minha ansiedade. É como quando a vida perece se tornar um filme chato, exaustivo e sem trilha sonora.
Eu explodo constantemente, isso é real. Venho com tudo que é sentimentalismo e atitude num pacote compactado pronto para ser consumido. Exageradamente. Posso estar chorando e rindo em questões de minutos. Se hoje te amo isso nunca vai significar enternidade. Não por mal. Pois gostaria que assim fosse. Por razões da natureza mesmo.
Aí eu me surpreendo com o fato de não te esquecer. Uma vez que... deixa pra lá.
Atravesso um momento complicado. Fruto de tropeços passados. E deixo a mostra minhas feridas e fraquezas, carências e virtudes. O vício me condena. Não tenho escapatória.
Tesão, sono, medo, raiva, graça, memória. O dia seguinte sempre aguarda. Uma nova surpresa.

1.3.08

No país das últimas coisas

" Algo desaparece e, se você passar muito tempo sem pensar nele, nada haverá de trazê-lo de volta. Recordar não é um ato de vontade, afinal. É algo que ocorre a despeito de nós, e, quando há muita coisa mudando ao mesmo tempo, o cérebro vacila e os objetos lhe escapam. Às vezes, quando me vejo tateando em busca de um pensamento que fugiu, começo a evocar os velhos tempos, a me lembrar de quando eu era menina e toda família viajava de trem para o norte, nas férias de verão.

William, meu irmão mais velho, sempre deixava para mim o assento da janela e, a maior parte do tempo, eu não falava com ninguém, viajava com o rosto comprimido na vidraça, contemplando a paisagem, estudando o céu, as árvores e a água, enquanto o trem percorria os campos.

Achava tudo tão bonito, tão mais bonito que as coisas da cidade, e, todos os anos, dizia a mim mesma: "Anna, você nunca viu nada mais lindo. Tente se lembrar disso, tente memorizar as belas coisas que está vendo, para que fiquem para sempre com você, mesmo quando já não as possa ver".

Não creio que tenha olhado para o mundo com mais interesse que naquelas viagens ao norte. Queria que tudo me pertencesse, que tudo se tornasse parte do meu ser, e recordo que tentava guardar aquela beleza na memória, armazená-la para depois, quando me fosse realmente necessária.

O diabo é que não consegui. Tentava tanto, mas, de um modo ou de outro, sempre acabava me esquecendo e, por fim, só conseguia me lembrar do quanto tentara me lembrar. As coisas passavam muito depressa e, mal as via, já se haviam escapado, substituídas por outras que também desapareciam antes mesmo que chegasse a vê-las."


(Paul Auster, No País das Últimas Coisas, pp. 77-78. Tradução de Luiz Araújo.)

27.2.08

Púdico ludico

Porque o dia me exige. Porque a noite me exprime. Espreme meus desejos de sumir da realidade e permanecer vagando como a lua num navio distante. Eu navego movida pelas emoções.
Aí eu durmo. Os sonhos já não existem como eram. Pecados. A magia da luz não me completa.
Um cisnei de gesso me faz pensar a existencia humana. Esses bonecos de quintal são todos iguais. Feitos em série e colocados como obras de artes. Melhor quando parecem bregas de verdade. Não me atrai a ilusão.
Eu tentei acreditar que a beleza está na alma. Mas a alma é impura!?
Não vou omitir. Estou carente de amor. Ambiciono o amor de todas as suas formas. Ambiciono amar. Ambiciono ser amada e ambiciono acreditar. Porra. Isso tudo é uma merda.
Acho que são as novelas. Ando assistindo novelas na globo.
Imergir/ Emergir/ Imergir/ Emergir/ Existir/...
Saudades de tanta coisa. Vontade. Saudades de você.
As suas palavras que riam e melodiavam. As palavras sempre me fascinaram. Mas seu silêncio é que me seduz. Instiga. Até os ossos. Ossos do ofício. Essa é a sua feminilidade: o charme, querido. Sua leve tristeza. Encontrei a resposta.
Somos tão efêmeros quanto os momentos de felicidade que vivemos.
Eu naum quero o equilibrio e a sabedoria. Eu quero o êxtase e a ignorância.
Para tentar não te amar, se for possível.
Menina lúdica, menino púdico.

29.1.08

A descoberta do amor

“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”


C.L.

Viver plenamente

“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”


C.L.