30.7.13

O Adeus - por Rubem Braga

“No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho? Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas. Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante. Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: ‘Meu Deus, seus olhos estão esverdeando’: Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado. Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam? Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago. Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação. E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.” (Rubem Braga, “O Adeus”)

Com vocês, Antonio Maria

“Esta noite… esta chuva… estas reticências. Sei lá. Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto? Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer: — Estou me sentindo assim, assim, assim… A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo. Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença. E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”. Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca. Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme. Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta: — Que é que houve? O senhor está mais velho? Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou: — O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu. Tinha pensado que, sem os óculos… Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes. Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida. (Antonio Maria, em “Com vocês Antônio Maria”).

CHAPEUZINHO VERMELHO

“Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e… (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo que andar na floresta sozinha, – natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.). Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: “Onde vais, linda menina?” Respondeu Chapeuzinho Vermelho: “Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”. Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: “Psychopathology Of Everiday Life”, The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó. Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em “Sexual Behavior in the Human Female”. W. B. Saunders Company, Publishers.) Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.” (Millôr Fernandes, “Chapeuzinho Vermelho”, em “Lições de um Ignorante”).

30.4.13

Antes ela tivesse se tornado uma barata

A menina sem estrela desperta certa manhã submersa num aquário de gelo e vidro. Ela pode ver tudo, mas suas dores e emoções estão congeladas, juntamente com todos os órgãos do seu corpo. Assim ela não come, não chora, não ri, não se movimenta. Sente sono, porém o frio intenso não a deixa dormir e mantém sua face sempre com a mesma expressão. É possível por entre o vidro enxergar a morte. A morte de todas as coisas que perambulavam ao seu redor. Algumas pessoas apontam os dedos em sua direção e soltam longas gargalhadas. Para outras a sua atual condição virou uma vitrine do não faça. Ela ainda tem consciência, embora isso não lhe dê esperanças. " - Ah essa palavra esperança é mais gélida que o aquário!". E assim passam as horas e os dias e ninguém percebe sua ausência real. Há os que acham que ela ficou mais bonita assim. Ali, no aquário de gelo, o coração da menina sem estrela ainda bate. E ela reza para esse metrônomo inconstante congelar junto com ela.

19.2.13

Podes explicar o baixo de cima?

Que é isso de tronos/ onde sentam as verdades/ não deves saber das marés/ do sal que carrega o mar/ Exuberante transição/ Se na morte vês a vida/ a vida pra si é ficção/ é uma bola de cristal que pressente/ e pede todos os dias para o coração dizer não/ A intensidade reflete/ uma leve luz/ Mas os jovens imaturos carregados de registros/ escondem sobre os braços suas obras inacabadas/ ditando regras sem emoção/ 20 pés de diâmetro/ "a realidade não se mede"/ diz a rainha cheia de lágrimas/ "O brilho está no olho"/ virou-se sem direção.

16.2.13

Nova era me espera

As circunstâncias me disseram vá embora. Não há mais céu nem estrelas apenas uma alta montanha na qual percorrerei o despenhadeiro até conseguir visualizar algo em que eu possa confiar. Chove pedras, mordidas, arranhões, mortes e esfolada minha pele perdura para seguir adiante essa viagem. No alto eu posso olhar a estratosfera, a calma. Mas não nego... esse barulho ainda me aterroriza. Um tambor de madeira e couro soa dentro de mim como um soco que me é dado a cada segundo-vida. As paredes de ouro sólido cobrem o seu redor enquanto observa tudo pelos parapeitos dessas janelinhas minúsculas que você chama de verdade. Suas palavras sujas me jogaram nesta arena da derrota. Se não fosse minha alma guerrilha quem sabe teria chegado no seu desejo de me ver morta. O jejum pesou até mesmo para o papa, mas aqui não se renuncia na mídia universal. Minha renúncia é calada. Nenhum homem deveria fuzilar a alma de uma mulher. À esses eu diria, covardia.

8.11.12

Um cavalo de olhos azuis esverdeados

o que você vê é aquilo que vê: os hospícios raramente estão visíveis. que continuemos caminhando por aí e nos coçando e acendendo cigarros é mais miraculoso do que os banhos das beldades do que as rosas e as mariposas. sentar-se em um pequeno quarto e beber uma latinha de cerveja e fechar um cigarro ouvindo Brahms em um radinho vermelho é como ter voltado de uma dúzia de batalhas com vida ouvir o som da geladeira enquanto as beldades banhadas apodrecem e as laranjas e maçãs rolam para longe. Charles Bukowski - "O amor é um cão dos diabos - p.162".

7.11.12

Alvo branco

O desejo assassino as vezes desperta mesmo nas almas mais ocas. Naquelas dondocas queridinhas é onde ele vive certeiro. Sobre o cerrado no verão anda mais tranquilo, pois o frio é sedutor. Escorrem navios encobertos de plumas sobre a mesa de taças finas e corpos rosados. Ali mora o pergio, sangue, crueldade. Nas entrelinhas mal escritas dos versos que nunca, nunca foram ditos. Por que se chama saudade, silencio, timidez, ingenuidade, aquilo que deveria se chamar escuridão? Óh noturna senhora que olha de canto para as camas vazias. Não sabe nada da vida. Sente ali fora e corte seus pulsos para sentir a dor que chóra. Chore feito uma vadia por tudo aquilo que deixou de ser para parecer o que seria. Se eu pudesse meter uma bala em cada cabecinha dócil que me afaga. Não! Não se perca. Tem que ter peito e raça para permanecer de pé nesta estaca. Não vale cair.

Valsa dos sentidos

Pode-se dizer que na oposição entre o prelúdio e a fuga está inscrita uma encruzilhada. A fuga é sempre defasada, mas o prelúdio anda marcado, elegante. Eu nunca fui prelúdio, muito menos fuga. Talvez por isso ando sempre distante das verdades. O pulsar do relógio nunca foi o ditador da minha melodia. Mas por que eu falo de música? Tanto faz. Poderia falar de livros, de cinema, de esporte, política, economia. Isso pouco importa. Mas importa em mim a ênfase, a vivacidade das coisas, sempre me fixei na emoção que conduz qualquer coisa que seja. Acontece que as vezes o ritmo foge, o trem descarrilha e é necessário pensar, olhar o nada, chorar. Já havia passado o dia todo do sumiço da minha cachorrinha quando ela apareceu. E não há sensação melhor que a surpresa. Rá! A surpresa é uma rasteira que nos derruba e faz cócegas. Mas aí volta o silêncio e o pensar. E de pensar tanto e tanto, coisas que antes eu nem ligava, acho melhor sempre aguardar. Uma nova surpresa pode chegar. Quem sabe eu sou mais sortuda do que imagino. Fé, piada. A vida só não me fez menina.