4.4.12

MARAVILHANDO

No fundo do meu peito, dorme um verso.
É feito de visões, contradições,
desesperanças, sonhos, sins, senões.
Nele cabem tu, eu, mais o universo.

Se te abro o coração, em dor imerso,
então já não converso – oh emoções! -
mas transfiro minh’alma e orações
ao deus que, em ti presente, eu conservo.

É que a beleza vive pelo amor,
pois só por ele unem-se os extremos,
diluem-se mazelas, picuinhas

e faz com que o espírito, senhor
dos sentidos, almeje os bens supremos
e escreva certo pelas tortas linhas!

antonio thadeu wojciechowski

2.4.12

Labirinto

Em veneno me atiro em ti
para beber sem sede
até o interím deste inverno
onde os casacos de pele
nos cobrirão pálidos
entre os tumulos que nos afastam

São cinco os sentidos
sinto sempre o seu pulsar
o sangue da sua masculinidade
o sorriso intermitente

Soslaio, brilho e tragédia
As crianças completaram o quadro
do artista que sobre o ombro
vergava lua escura da noite
Sempre a esperar

Assim espero
sua boca acariciar meus seios
e te dou ouro
mesmo sabendo
que sua fome é de pão

Se falo amor
eu me ajoelho à morte
desmascarando o prazer
que em mim
também é dor

16.2.12

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno em que vivemos cada dia, que formamos estando juntos. Há duas maneiras de não sofrer. Uma é fácil à maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até deixar de percebê-lo. A outra é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” (Marco Polo em “As Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino, citado por Renato Modernell em “Os Jornalistas – O Romance do Carrosel”).

E AGORA

“E agora essa alegria ambígua, a alquimia: o crepúsculo de domingo celebra a passagem do vinho ao vinagre, processo secreto que me faz dissipar quem sou e reencarnar quem fui. Não sei quanto me resta. Só sei que estarás aqui quando eu, incógnito como cheguei, já tiver partido. Qual será o último filme, a última pizza? Só os duvidosos deuses enxergam o número de série de cada objeto e de cada gesto. No domingo, eles se divertem jogando bingo. Somos as pedrinhas saindo do saco escuro.” (Renato Modernell em “Os Jornalistas – O Romance do Carrossel”)

3.11.11

Amor com destino

E ela entrou no bar. Noite vazia. De tão sentimental por pouco lhe vazava nas bordas lágrimas bem transparentinhas. Um coração incurável sempre com ar de moradia. Não era para ser naquele momento, mas lhe caiu como um gole ardente do álcool mais puro. Só não sabia, que de volátil nada havia. Com a cabeça baixa, mesmo triste, não poupava o riso. Era para que a vida fosse mais impo...rtante que tudo. E seria. Olhou para aquele homem barrigudo e desleixado que ficava atrás do balcão murmurando dizeres sem nexo, de forma que as vezes ofendia, e pediu:
- Uma dose.
A dose transbordou sobre a mesa, escorreu por todos os lados, preencheu todos os vãos, cantinhos e espaços. Quase que ela não consegue segurar tudo de uma vez porque nunca havia ganhado uma dose assim tão grande, tão forte, tão encorpada de álcool e embriaguez. A dose veio com um delicioso acompanhamento, de brinde: um destino.

6.9.11

Eu apaguei a luz.

Que esse Deus que vós proliferais pela boca seja menos sangue. Porque se tudo se justifica em simples palavras a poesia já seria rainha. Não dá, esse meu leve hábito de acreditar me faz uma suicida compulsiva. E eu morro diariamente frente à seus olhos e a tantos olhos que nos olham-vazios-insuportáveis. Já haviam meses que eu não bebia. Estava realmente buscando algo que me facinasse no mundo a ponto de eu não precisar de mais nada. Mas essa busca eloquente por um sentimento que valia é nula em mim. Num momento triste como agora, que me sinto triste e oca, num momento assim me permito um pouco fracassada para meu eu. Entretanto se observo meu redor, o que eu fui além de uma guerreira da vida? Uma guerreira banana que nao sabe se anda, se senta ou se apaga da memória as roxas porradas que a falta de algo me causou. E bebo mais já que é véspera de feriado e chove muito lá fora. Bebo por cada medo que engoli inteiro e sozinha. Cada mão que me soltou no precipício sem ao menos olhar para trás. À sua ausência de espírito. Ainda sinto gemer seus gritos de socorro no meu ventre. Mas não há mais vida em mim para que ao menos eu possa me despedir. E as ofensas serão infinitas enquanto eu, mulher.

28.7.11

MEMORIAS VERMELHAS

Agora vestida com o uniforme oficial cor de sangue neste presídio solitário. As manhãs prolongadas me dao medo. A pena será longa e eu terei de cumpri-la com a cabeça erguida. Essa coisa teatral que faz parte do dia a dia. As manchas ja estao por toda a parte da roupa que nem se vê a cor exata. Do lado de fora, começa o espetáculo. E me calo frente ao copo de aguardente para conseguir subir no palco. Nao sou atriz e nunca pretendi ser. A verdade é que nao gosto de interpretaçoes. Isso vale para todos os sentidos possiveis da palavra. Mas, ainda que isso me custasse, nao haviam escolhas. Resolvi subir as escadas e cá estou buscando uma confirmaçao da platéia. É, a sinceridade me tirou os aplausos.

24.7.11

Choramos a morte quando deveriamos chorar a vida.

9.4.11

Meu acorde é um só

Às vezes percebo que certas musicas, as melhores, não tem letra. Assim prestamos mais atenção na melodia. Nesta mesma constante vejo hoje, pequeno, nosso amor. O “não-dito” nos toca e nos faz ouvir aquilo que nunca seria possível se não houvesse em nós a música da nossa relação. E embora sejamos músicos, de fato, isso nada tem a ver com a parábola. A nossa composição está no olhar, no toque, na emoção do encontro, na dor da despedida, nas risadas e discussões, no medo que temos de perder um ao outro. Essas são as notas que não nos deixam mentir. Assim, quando precisamos ouvir a musica, não importa a técnica, os sentidos, a ciência, a matemática. Esqueça das lições, interpretações e opiniões. Vale, apenas sentir. E nessa coisa do sentir somos profissionais virtuosos. Em um mês nossas variadas partituras já comporiam um livro de graduados. Do alegreto moderato ao andante prestíssimo. É, nem sempre há harmonia nessas linhas (...). Mas nossas habilidades musicais nos permitem desafinar sem perder o ritmo e a postura. Aos dodecafônicos agradecemos à parceria. A música não parou desde àquele instante inexato. Sempre pulsante: ora tambor, ora clarinete. Tumtam, parampampam. Essa escala não tem volta. Eu amo nossa música como se fosse a mais bela tocada nesse anfiteatro da vida. Quem da platéia ainda vaia, é porque não entende de som coisa nenhuma. Antes de baixar o volume preste atenção, mas não perca o raciocínio: o que os compositores fizeram foi só tocar em instrumentos aquilo que já era tocado pelo corpo. Parafraseando Uexkull: “Todo corpo é uma melodia que se toca”. Pode vir metal ou clássico, brega ou popular: nossa música é para sempre. O nosso amor é melodia.

1.3.11

(…)

“Mas um velho de aspecto venerando
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

– ‘O glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Com aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

‘Dura inquietação d’alma e da vida
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com que se o povo néscio engana!”

(Camões em “Os Lusíadas”; estrofes 94, 95 e 96 do canto quarto).