10.7.09

Inlolupiaveis seres estramunos

Perdi minha alma
caiu por ai
se encheu de lama
e até goma de mascar jogaram em cima dela

Nacionalista que era
que foi um dia
quando ainda estava em minha posse
minha alma verde amarela

Hoje colho os olhos que plantei
antes que virem ilusões
os matei

Aí ói surucucu do mato
Me sufoque pro mundo
Para esse mundo que só vê o que é exato

Eu nao perdoo
a falta de amor
porque amor é coisa pouca
que se acha jogado em qualquer cama
Mas que sobrevive aos poucos
elementos nulos
dos suburbios humanos

DE TRÊS PONTAS

FAÇA DAS TRIPAS O CHAPÉU.

SIM, SALABIM.

ENTRA NA RODA E REBOLA

AMANHÃ É NOSSO DIA.

DE ROBE DE CHAMBRE

TU NUNCA ME VERÁS

SENTADA NA POLTRONA

FAÇA DAS TRIPAS O CHAPÉU...

O ocuo

Perplexo. Assusto-me com os vultos que me perseguem. Eis que a muito tempo seus valores não são mais os nossos. Eu o educaria bem depressa. Mas sendo depressa com pressa não poderia. Posso então bater as botas com meu pobre coração esbugalhado e poucas pessoas sentirão isso e isso me deixa mal. Inquieta. Jésuis me salve desse pranto. Ando evitando as palavras. Alma oca. Você ja passou um tempo sem sentir nada? Absoluto vazio? Os sentimentos do mundo cansaram de sufocar e alegrar esse corpinho pegajoso que minha mãe fez tão bonitinho e ordinário pro mundo? Entao entre para o clube do vácuo. O vácuo que não é o marido da vaca nem marido de ninguem. Aqui no vácuo só cabem aqueles que mesmo sozinhos ainda não se sentem suficientemente sós como gostariam. Chega de livros, filmes, discos, msn, orkut, novelas, pensamentos, imaginações, abstrações. É a morte da alma. Da alma virtual também. Aí o professor pergunta pro aluno: que é que tua mãe faz? Ela é substituta. Substituta do que? Substituta da minha tia que é prostituta. A vida é dura. "A vida é crua." Inovar já é ultrapassado demais para alguém qualquer como eu. E foi assim que os papéis permaneceram em branco. Sem manchas, sem tintas. Sem cinzas de cigarro, sem absolutamentes. Aqui jazem meus eus. Entre mil flores e bosques plantados por esses heróis imigrantes. Sem mais saudades.

1.7.09

SEXTA-FEIRA NEGRA - david goodis

“-deus do céu - disse ele, porque mesmo com o sobretudo ainda estava tremendamente frio, e sorriu ao recordar que fora exatamente por isso que deixara a universidade, porque aqueles invernos da filadélfia eram simplesmente demais para ele. lembrou de um dia tão deplorável quanto um dia pode ser sem chuva ou neve, mas um dia frio e cinzento com a obscuridade suspensa sobre céus e ruas, e então decidiu que não precisava enfrentar aquele tipo de clima, mesmo que gostasse da atmosfera da universidade e das coisas que aprendia lá. portanto arrumou seus pertences e pegou um trem, usufruindo a luxúria que é cair fora de alguma coisa na qual não se tem mais interesse. mas agora não havia como cair fora, havia apenas fuga. e há uma enorme diferença entre cair fora e fugir.”

SEXTA-FEIRA NEGRA - david goodis - p. 11

6.6.09

Quando Hilda grita às galinhas...

5.6.09

GOSTOSA!

O copo caiu de sua mão, estilhaçou. Não jorrou sangue de sua alma pecadora. Ela ri da vida que lhe cabe. Com os sentimentos brinca, prostitui-os. Sai de cena quando quer respirar.
É por isso que eu confio com dificuldade nela. Porque a dor vem a ela como neve e vai dela como fogo. É um mito sensitivo. Contávamos as notas daquele dia de trabalho. Uma por uma miudeza de números tão chatos de se somar. Se não fosse por aquele dinheiro nunca estaríamos seduzindo essa infelicidade. É o desapego que me cabe nos pensamentos do dia. E nós íamos de ia em ia sem saber que você sabia onde isso iria chegar.
Estrada Velha. Pedi a ela para não se assustar com o que eu lhe disse. Afinal, nem sempre a verdade se concretiza. Sabemos bem o gosto do alimento que nos agrada o paladar. Pálidas! Contornamos as situações e voltamos caladas. Não foi medo não. É que o cabelo dela estava oleoso. (“Não gosto de sair com os cabelos oleosos. Sinto-os pesando meu corpo.”) Higiene é essencial para mulheres como nós. E como nós não somos amigas íntimas eu nunca soube se tudo tinha dado certo. Foi uma tentativa. A primeira delas.
Mas eu devo admitir que é bom demais da conta ser dona do mundo. Desde que ficamos famosas nas páginas vermelhas, minha vida tem se tornado muito mais estúpida e gostosa!

1.6.09

Um trecho de algumas notas em algum subsolo

O fim dos fins, senhores, é não fazer nada, absolutamente nada. A inércia contemplativa é preferível seja ao que for. Assim pois, viva o subsolo! Se bem, que eu tenha dito antes que inve­java o homem normal até a derradeira gota da minha bílis, quando o vejo tal qual é, renuncio ao ser normal (não cessando todavia de ter inveja dele). Não! não! apesar de tudo o subsolo vale mais. Lá ao menos se pode… Ah! cá que minto de novo! Minto, porque sei, tão claramente quanto duas vezes dois são quatro, que não é o subsolo que vale mais, mas algo muito dife­rente a que aspiro, mas que não posso descobrir. Para o diabo o subsolo!

Se eu pudesse crer ao menos numa só palavra do que escrevo aqui! juro‑vos, senhores, que não creio em uma só palavra, em uma única e miserável palavrinha! Ou melhor dizendo: creio, talvez, mas sinto no mesmo momento, suspeito, não sei por quê, que minto descaradamente.

‑ Mas, nesse caso, por que escreveu tudo isto? ‑ pergun­tareis certamente.

Que teríeis dito se eu vos tivesse encerrado durante quarenta anos, sem fazer nada, e se, decorrido esse tempo, eu fosse visi­tar‑vos no vosso subsolo para verificar no que vos tínheis tornado?

Bem que eu gostaria de vos ver lá! Pode‑se deixar durante quarenta anos um homem só e sem ocupação?

“Mas não é vergonhoso, não é humilhante!” ‑ me direis talvez, meneando a cabeça, com desprezo, ‑ “Você tem sede de vida, mas quer resolver as questões vitais por meio de mal­‑entendidos lógicos. E que obstinação! Que impudência com isso!

Mas tem medo, apesar de tudo. Você diz inépcias, mas sente‑se feliz com elas. Diz insolências, mas tem medo e se desculpa. Declara que não receia ninguém, mas busca as nossas boas graças. Você nos assegura que range os dentes, mas graceja ao mesmo tem­po, para nos fazer rir. Sabe que as suas sentenças não valem nada, mas parece muito satisfeito com a sua literatura. É possível que você tenha sofrido, mas não tem nenhum respeito pelo. seu sofri­mento. Há certa verdade em suas palavras, mas falta‑lhes pudor. Sob a ação da vaidade mais mesquinha, você traz a sua verdade t para a praça pública, expõe‑na no mercado, para alvo de chacota. Você tem alguma coisa a dizer, mas o temor faz‑lhe escamotear a última palavra, pois é insolente, mas não audaz. Gaba a sua consciência, mas não é capaz senão de hesitação, porque embora sua inteligência trabalhe, seu coração está emporcalhado pela libertinagem; ora, se o coração não é puro, a consciência não pode ser clarividente, nem completa. E como você é importuno, como é molesto! Que palhaçada, a sua! Mentira tudo isso! Mentira! Mentira!”

Todas estas palavras, fui eu quem mas “, evidentemente. Elas também provêm do subsolo. Durante quarenta anos, prestei atenção por uma pequena fenda a esses discursos. Eu próprio os compus, pois não tinha outra coisa a fazer. Por isso foi‑me fácil decorá‑los e imprimir‑lhes; uma forma literária.

Mas, pudestes crer, verdadeiramente, que eu ia imprimir tudo isto e vo‑lo dar para ler? E eis ainda o que não compreendo: por que me dirijo a vós, chamando‑vos de “senhores”, como se fósseis leitores meus? Não se publicam, não se dão a ler a nin­guém as confidências que eu me preparo para fazer aqui. EU, em todo o caso, não sou suficientemente forte para agir assim, e, de resto, não vejo a necessidade disso. Mas, vede, veio‑me alma fantasia, e quero realizá‑la custe o que custar. Eis do que se trata:

Entre as lembranças que cada um de nós possui, há algumas que não contamos senão aos nonos amigos. Há outras ainda que não confessaremos nem mesmo aos nossos amigos, que não repe­tiremos senão a nós mesmos, e aliás, sob o signo do segredo. Mas existem enfim coisas que o homem não consente nem em confessar a si mesmo. No curso de sua existência, todo homem honesto acumulou dessas lembranças suficientemente. Direi mesmo que seu número é tanto mais importante, quanto o homem é mais honesto. Eu, em toda o caso, não faz muito tempo que me decidi a me lem­brar de certas antigas aventuras minhas; até aqui, evitei‑as, e não sem um tanto de inquietação. Ora, agora, quando as evoco e quero mesmo anotá‑las, agora tenho a prova: é possível ser franco e sincero, ao menos cara a cara consigo mesmo, e poder‑se‑á dizer toda a verdade? Observarei a este propósito que Heine assegura que não podem existir autobiografias exatas, e que o homem mente sempre, quando fala de si mesmo.. Rousseau, com seu ponto de vista, certamente nos enganou nas sua Confissões e mesmo delibe­radamente, por vaidade. Estou certo de que Heine tem razão: compreendo muito bem que nos possamos sobrecarregar de crimes abomináveis, apenas por vaidade, e compreendo também o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões pú­blicas; ora, eu não escrevo senão para mim sozinho e declaro de lima Vez por todas que, se pareço dirigir‑me ao leitor, é simples­mente iam processo de que me sirvo para maior facilidade. Não é senão uma forma, uma forma vazia; e quanto aos leitores, não. os terei jamais. já o declarei.

Não quero ser incomodado em nada na redação das minhas notas. Não observarei nenhuma ordem, nenhum sistema. Escre­verei simplesmente o que me lembrar.

Mas vós poderíeis me pegar na palavra desde o começo e me perguntar: se é verdade que não pensa em seus leitores, por que então combina consigo mesmo ‑ e no papel ‑ ainda! ‑ que não observará nenhuma ordem, nenhum sistema, que registrará o que lhe passar pela cabeça, etc.? Por que se explica? Por que essas desculpas ?

Pois bem! eis aí! é assim!

Há, de resto, aí, um caso psicológico interessante. É possível que eu seja muito simplesmente um covarde. Mas é possível também que imagine diante de mim um público, a fim de não perder o sentido das ‑conveniências. É possível ter milhares desses motivos…

Mas há ainda outra coisa: por que, em suma, pus‑me a escre­ver?’ Se não é para o público, não posso evocar minhas lem­branças sem as lançar ao papel?

Com efeito, mas quando estiverem fixadas no papel, adqui­rirão um aspecto mais solene. Isto me constrangerá, julgar‑me‑ei melhor e meu estilo ganhará. Demais, é possível que isto me traga certo consolo. Assim, hoje, estou particularmente oprimi­do por uma lembrança longínqua; surgiu em mim muito nitida­mente há alguns dias, e, desde então, me persegue sem tréguas, como um desses motivos musicais que não pretendem vos largar. Ora, é preciso absolutamente que eu me desembarace dela. Tenho centenas de recordações desse gênero; mas uma delas às vezes des­perta de súbito e me agarra pela garganta. Eu imagino, não sei mesmo por quê, que se a registrar, ficarei livre. Por que não tentaria?

E depois, enfim, eu me aborreço e nunca faço nada. Escrever as lembranças é um trabalho. Diz‑se que o trabalho torna o ho­mem bom e honesto. É então uma oportunidade que se me ofe­rece…

Fiódor Dostoiévski

29.5.09

Embriagada

Somos ainda muito pequenos. Tememos a própria morte tanto quanto tememos a morte do outro. Nada mais do que o sangue. Ninguém vê com clareza os fatos que me ocorrem. Eu os vejo. Vejo essa areia morta pelo deserto e me faz perceber o que é imortal em mim.
Eu não dormi bem esta noite. Não ando bem de saúde. A minha dor é o ódio de um pesadelo que não se contentou em me matar. Quer comer cru cada pedaço de meu corpo. Como se minha vida estivesse exposta numa vitrine de açougue. Meu corpo mutilado ainda tem forças. É a energia vital da “mãe-coisa” que se abre em mim constantemente. Sim, sou mãe. Sou mulher.
Eu entro no carro. A porta se fecha. Sinto uma súbita angústia, fadiga, que me percorre os caminhos do dia.
Agora, ainda cansada recolho os destroços da guerra. Ainda encontro tentativas de assombro pela estrada. Eu ando de joelhos sobre o chão. Rastejo a ignorância da humanidade. Poucas vezes me senti frágil. Estou frágil.
Isso é mérito aos ouvidos do assassino de memórias. Por quê você não sabe sonhar, quer carregar os meus sonhos (...). Sinto muito, vai levar consigo as minhas derrotas. É por isso que carregas uma dor maior que a minha. A dor do ódio eu não sinto. E assim cheguei ao trabalho. Meus olhos doem, minha cabeça. Se existe um Deus nesse mundo que rege e guarda-nos o que Ele espera de mim?
Na hora do almoço, eu me sinto melhor. Acho que é o desabafo da vida que me resgata ao mundo. Em momento nenhum me senti distante da minha verdade. Eu sei de tudo e não me preocupam suas acusações. Me molesta sim ter dormido, uma noite sequer ao seu lado. Me enraivece tê-lo amado um dia. Amor banal. Preciso dar mais valor aos meus sentimentos. O bastante para viver.
Quanto ao presente embrulhado em cetim que me foi dado. Desse presente não esquecerei. Tampouco quero-o pra mim. Creio que não me fará bem. As minhas meias estão cerzidas até a cocha. Isso me incomoda meu amor. Você pode tocar as minhas pernas, mas não busca soluções. Embora não tenha sido essa a foto do desespero. Foi nela que mergulhamos juntos. O pássaro que me chamou no meio da noite, perdido na sala de visitas do meu coração, era você pequeno. Não voe para muito longe. Seja sensato e busque o mesmo paraíso que um dia me pertencerá. Segure meus cabelos. Ou continue sua jornada para um bosque mais bonito. Encontrarás rosas perfumadas. Perfume que embriaga os adeuses. Eu preciso de valores, que a mim não foram dados. Rezo pela discórdia que criei entre meus "eus". Abstraio-me e respiro.
A noite chega e com ela seu alento. Eu aguardo anciosa pela pouca atenção que me pertence. Permaneço só ao me deitar. Essa solidão cruel me embala a escuridão. Me refugio no aconchego de minha filha (vida). Tenho medo, mas não temo nada. "Eis a vida, virem-se com ela".
Um belo dia, gostaria de te dar minha mão e sair por ai.

27.5.09

A complicada arte de ver

Rubem Alves

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

O texto acima foi extraído da seção "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004.

16.5.09

Muito bom!

O marido, ao chegar em casa no final da noite, diz à mulher que já estava deitada:
- Querida, eu quero amá-la.
A mulher, que estava dormindo, com a voz embolada, responde:
- A mala... ah não sei onde está não! Use a mochila que está no maleiro do quarto de visitas.
- Não é isso querida, hoje vou amar-te.
- Por mim, você pode ir até Júpiter, até Saturno e até à p.q.p, desde que me deixe dormir em p
desde que me deixe dormir em paz porra!