24.9.10

Contra, dizendo Crumb!

Difícil trazer algo novo quando tanta coisa já foi dita e redita sobre a passagem do Crumb pelo Brasil. O que se pode diferenciar é o olhar de cada um. Muitos jornalistas e muitas pessoas que passaram pela Flip este ano o fizeram pelo interesse irreverente na obra de Robert Crumb. Quando eu soube da confirmação dele fiquei histérica na busca de uma forma de chegar à Parati. Ônibus, carro, avião, dinheiro, trabalho, filha, pousada, tempo, espaço. Nada que a força de vontade não supere. Muitas vezes já me senti uma mulher crumbiana (fortinha). E é nessa ótica feminina que eu sempre fui fã das obras desse quadrinista. Sabe aqueles sentimentos que as mães têm quando vão ver um show do Roberto Carlos no ginásio de esportes da cidade?! Assim eu fico quando leio o Crumb. Enquanto Roberto Carlos enxerga o coração dessas mães, Crumb também fala, ao seu modo, à auto-estima feminina.Sou um pouco suspeita para comentar a respeito, mas tudo bem, pois se a noite de amores é inevitável, então o negócio é relaxar e gozar! Confesso que nunca fui uma fã de carteirinha dele, até bem pouco tempo. Meus amigos sempre comentavam e diziam que eu era tão perfeita fisicamente que só mesmo o Crumb podia ter me desenhado! Hahaha..., todo escritor aumenta um pouquinho o enredo. No entanto, só fui começar a entender seus livros de verdade quando vi o documentário sobre sua vida. É incrível como um sujeito que tinha tudo para dar errado, conseguiu se sair tão bem na vida! Vai lá, o cara é extravagante e meio estrela também, mas eu dou razão para ele! É um tanto chato ser rodeado de pessoas e jornalistas de chocadeira que sequer o conhecem como sua obra exige. Ademais, é sempre bom lembrarmos que - bem ou mal - a obra é uma extensão do artista, ainda que Barthes contradiga essa máxima.No século XIX, Honoree de Balzac exaltava a mulher de trinta, dando origem ao termo "balzaquiana", que em resumo mostra que a mulher chegou no seu auge; da obra de Crumb nasceu também um padrão de beleza: a mulher crumbiana! Esta, uma mulher forte, decidida e com a qual machinho nenhum vem "se meter à besta". A antítese às figurinhas macabras que povoam o Fantástico Mundinho da moda e às bonequinhas presentes na tevê e no cinema. A mulher crumbiana é tudo o que toda mulher que se ama sonha em ser! Aliás, imagina só que foi ele quem fez a capa para o disco "Cheap Thrills" da Janis Joplin! Tudo bem que ela não passou dos 27, mas o que vale, além de sua voz para sempre calçada no coração da humanidade, é a forma carinhosa como Crumb a retratou. Que honra maior uma mulher poderia querer?!
Pessoalmente, ainda sinto que meus amigos exageravam quando me chamavam de crumbiana, até porque sou uma simples mortal, jornalista e mãe de família, apaixonada por tudo o que faço. Mas o fato me fez conhecer e admirar esse autor a ponto de me tornar uma ávida apreciadora de seu trabalho. Tive o prazer de vê-lo na última FLIP e acreditem, ele foi um legítimo cavalheiro. No entanto, até onde eu pude perceber, a imprensa preferiu cutucar a onça com vara curta, criticaram sua postura e deixaram a desejar nas entrevistas. Eles já sabiam que ele era antissocial e sequer souberam respeitar isso, afinal misantropos e sopas são coisas muito semalhantes: comem-se pelas beiradas! Em tudo quanto é canto a gente lê que ele tratou os repórteres com frieza e esculhambou os fotógrafos até não poder mais. Agora convenhamos, o cara se enfiou em um remoto cantinho lá na França para justamente se manter longe de todo esse frenesi. Não quero criticar os jornalistas (estaria dando um tiro no próprio pé), mas é um fato consumado que o sistema os imbeciliza e acaba com profissionais que poderiam fazer muito mais do que supõe-se sua vã formação. É sempre bom lembrar que o Crumb vem de uma geração de idealistas e sempre será lembrado como um ícone da contracultura. Está certo que hoje o cara é um idealista frustrado, mas ainda assim, continua sendo um artista ímpar. Outra coisa interessante foi ver que em determinados momentos, quando perguntado sobre o que achava de determinado novo talento, ele sempre respondia que nem sabia quem era, e boa parte da imprensa usava isso como munição para achincalhá-lo. Ora bolas, ele estava no seu direito! Afinal, ele é o Crumb!Enfim lá estava eu sentada diante dele, sua mulher Aline Kominski (legitima personagem), o não menos talentoso Gilbert “Freak” Shelton e sua esposa Lora Fountain. Mandei a ver com minhas perguntinhas que renderam algumas matérias por aí. Lá vai:

Logo de inicio quando lhe perguntaram sobre sua opinião acerca do trabalho da nova geração de quadrinistas como o de Dash Shaw, ele responde que não conhece. Gilbert também. Aline justificou o fato com a ausência deles a esse mundo midiático. Quando foi questionado por retratar a América ele comentou duramente que o rosto da América hoje é “ugly, very ugly”, porque se tornou um estado fascista, e por mais que algum grande estadista queira ou tente mudar isso, as forças destrutivas são muito maiores. Depois explica qual é a relação da sua vida pessoal com o Genesis: “nenhuma”. Ele só tentou retratar a história de uma forma mais cômica. Disse que gosta dos mitos, da riqueza dessas histórias, de Sodoma e Gomorra, dos mistérios antigos. Ao lhe perguntar sobre a cantora Aracy Cortes e a escolha dela para fazer parte da coletânea composta por Crumb, intitulada “Hot Woman”, o escritor citou sua paixão pelos discos de 78 rotações e ainda acrescentou: “se alguém tiver algum disco para vender, eu compro”. No restante da entrevista eles mantiveram a pose o e caráter característicos, proporcionando risadas e muita franqueza e objetividade. “É bizarro participar da Flip”, comentou Crumb, “Não quero ser levado a sério”, conclui. “Eu não conheço nenhum jovem”, respondeu Shelton quando questionado sobre a nova juventude e as influências massivas da mídia. “Mercado competitivo? Você deve estar zoando...”, disse ironicamente Crumb depois de ser interrogado pelo mediador, o jornalista Sérgio Dávila. Drogas, barbas, folk music, mulheres... Alguém sempre acabava caindo nessas questões com os dois que respondiam quase caricaturadamente com feições e gestos engraçados. Além de todo essa papo, Crumb citou muito sua família. Sua filha, também desenhista, e seu neto. Todos, hoje, morando na França. “Voltar para os EUA? Eu não! Tenho vergonha de ser americano. Tenho vergonha até de morar no planeta. Nós estamos todos encrencados”. E para completar, já que a festa era literária, eles não gostam de ficção, estão tentando ler os clássicos e admiram livros de jornalismo investigativo. No final do bate papo eles elogiaram a cidade de Paraty e confessaram que só vieram para o Brasil porque suas esposas os convenceram. Adoraram nosso guaraná! Interessante. “Só não se esqueçam, eu sou um artista do século XIX”. “Draw or die”.


Juana Dobro

12.9.10

São duas horas da madrugada de um dia assim

No meio da multidão. O riso afogava o grito do suicidio agudissimo na sua face. "Eu nao quero isso!" Essa dor fixada como um calo na minha alma. Essa dor está sempre ali. Ora Bebo, ora danço, ora amo, ora choro. Oras, essa dor nao se esgota em mim. Os desejos oscilam: entre zero e mil. Kilometros por hora. Aí caio na angustia dessa arma sem esporas. Devo pedir a Deus que me permita lhe conhecer? Devo aceitar esse destino tao belo como um conto de fadas daqueles que se contam para a criança ninar? Não sei se a alegria faz parte de mim fora do dia-a-dia. Se eu sou uma pessoa amarga. Se eu sou uma pessoa contente. Prepotente. Feliz ou infeliz. Não convém jamais julgar o que não podemos julgar, amém. Sabe o que é o amor pra mim? É a novidade, a invençao, o inexplicável. O acaso. A supresa que liga o momento lúcido à fantástica ilusão. Eia coisa (...), embora eu queira nao sei de nada mais. Estou rouca. Acho que o tempo passou para mim. Ninguém pôde me enxergar. Espero que você entenda e nunca desista. Minha carcaça não é bondade, embora a verdade sempre mentirá para você. Entretanto, em mim o sentimento é pleno. Venha, venha. Só reconheça o perigo de um universo em chamas. Não convém jamais julgar o que nao podemos julgar, amém.

Juana Dobro

1.9.10

Se há tempo para descansar

“Nunca é tarde para começar”. É cedo para começar? É tarde para terminar. É tarde para ser cedo demais, espera. O tempo tão efêmero cronologicamente o fizemos seres condicionados a ele. Tudo é sempre uma questão de perspectiva. Quando era jovem, embora ainda o seja, pensava que já o era e que quando estivesse hoje não o mais seria. Não dá para questionar essas coisas. Sei de Cora, sei de Hilda, sei de tantos compositores de tempos binários, trinários e quaternários. Sei que há tempos que me escravizei por ti, passado, presente, futuro.
Se sorrisos me caracterizam hoje, esse eterno hoje sempre será.
Nunca é tarde para acabar. Espera-se, passa. Então devo amar?
Não me mato pelo tempo que me afasta da juventude, ele cria em mim algo menos temporário e mais eterno que luzes agudas na veia. Sei que ainda lembro de seus desejos escuros. Mas quero outros desejos que me contemplem o bem estar. Pois se há tempo que ele seja curto quanto o vento e longo no sofá.
Depois de tudo me fiz mãe e o tempo nunca mais me consumirá.


Juana Dobro

27.8.10

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vega, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso” Com vinho, poesia ou virtude, a escolher”.

Charles Baudelaire

OS HOMENS OCOS

T. S. Elliot


"A penny for the Old Guy"
(Um pêni para o Velho Guy)


Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

31.3.10

O grau do amor

“do infinito do mar ao infinito do céu,
E, sonhando só com vocês, contemplo no fundo
O amor que sinto no meu ser mais profundo.
Ao lado deste amor, doce, forte, pungente,
Este imenso mar é pequeno e impotente.”

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Nunca mais?
Nunca. Não, tudo se foi neste ultimo dia de carnaval. Quando nada parecia ser certo, quando pudemos perceber que a ida de Dani para Júpiter tinha influenciado intensamente no nosso amor. Eu desde pequena fui precoce em muitas coisas, por outro lado tenho um atraso incrível em relação a outras coisas importantes. Já não importa. A alegria me dói. Depois meus olhos ficam úmidos. Eu sou uma mortal, lembrei. Estou tentando publicar um texto sobre o grau do amor. Eu nunca imaginei que as medidas fossem tão longe e que eu deveria ter prestado mais atenção nas formulas matemáticas ao invés de persistir na lógica. Se para mim tudo é tão insolúvel agora necessito de soluções. Mas corre nessas suas veias um sangue que não se soma. Não é o número o alimento do espírito moço. Esse esforço de nadar contra a corrente tira sua força vital. Alguns dirão: “todo mundo...”, como forma de consolo. Livrai-me disto senhor. A culpa me enraizou. Se você é infeliz agora, tome uma providência agora, entendeu? Assim eu sou. Eu existo numa sequencia de agoras. Estou viva agora e não sacrifico essa hora pelo dia de amanhã. Jamais o farei.
Pois bem, se pareço rude é porque o sou. Sempre que permiti algo, perdi mais do que isso. E meu coração dói a ignorância humana. Fui traída tantas vezes através da fé. É por isso que me vêem pessimista, embora eu não seja. Eu sou um animal. Minha alma é de bicho e não de gente. Não quero ser gente.
E numa batalha de inglórias eu perdi a única verdade que me restava. Guarde-a bem com você.
Eis que de repente fiquei agora mesmo com saudade de um cão que eu tive na minha infância, o Tobi. E me lembro bem do que aprendi com ele. O horrível dever é ir até o fim. Depois de entregar-se totalmente. O que me salva é a solidão. Beijos pequena. Não mais. Não me toque mais não.

4.2.10

Sou

Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

8.11.09

Às manchas da solidão

Fechada no meu canto com os gritos ocos dos suicídios, nenhum foi capaz de ouvir as pulsações que me permitem o amor pela vida. Ninguém amou mais do que eu nesta casa. Não é preciso conhecer meu corpo para me sentir verdade. E nesse cálice de sangue podem até me confundir com um assassino. Talvez se tivessem olhos às pessoas teriam talhado essas madeiras. Não é ouro o que brilha em mim. (neste momento você se aproxima e me vê jogado no chão chorando suado de beber o vinho derramado sobre minha camisa branca, você pega o copo de minha mão e bebe, enche novamente e bebe) O silencio fala no lugar da imensidão de idéias repousadas que ficaram num passado esquecível. Que tudo se desintegre na medida que meus sentimentos se consomem. Pouco me importa que você veja meus lamentos. O que levou contigo é muito maior do que o que por aqui permaneceu. E não há tempo que cure a covardia de um homem. Os sermões do mundo me cansam. Estendo as mãos brancas e ainda quentes para que essa chuva de domingo molhe e refresque minha ilusão. (é meio dia, toca o sino, todos sentam sobre a mesa e sorriem como de costume) Para os que me vêem desequilibrado eu não creio que existam numa margem de paixões. Não me conhecem, ninguém, senão eu, me conhece. Então eu me tranco diante do real-ilusório e me escondo na minha imaginação. Como alguém que tivesse tudo o que precisasse para viver com a boca seca, sem água, só sal, suas aventuras nocivas. Vejo-te lavando as mãos. Não tenho nada pra lhe dizer. Porque tudo que eu pude ouvir foi o barulho do meu parto quando nasci e já deveria saber: os braços do destino em mim se fechavam. Hoje sinto desejos em certos braços quentes, mas nada posso fazer com esses vasos quebrados. Meu calor derrete minha’lma, são de barro. Mesmo assim eu atiro minhas palavras pela janela, junto com as lembranças de dor e raiva e o gosto amargo da minha saliva cansada. Eu vejo tudo fosco à minha frente. A menina sonhadora que tanto traçou seus passos, sempre sorrindo. Louca, como diziam as vozes fracas. Não eram com estradas que eu sonhava. Jamais me passou pela cabeça o abandono dos meus valores. Sumir e percorrer caminhos em busca da felicidade. Eu logo percebi que fora dos limites do meu lar só encontraria decepção. Também cedo percebi que a solidão me alimentava. Mas eu não posso deixar que o vazio escape pelos meus poros. É aqui que eu comungo. Só assim posso cultuar a vida e saboreá-la obscenamente como uma criança pura deitada num gramado verde. É a minha escuridão, repleta de cores próprias que nunca, nunca serão vistas pelos Outros.

7.10.09

Na academia com Madonna


Uma história verdadeira de tempos fabulosos. Eu bati na janela errada. Naquela casa obscurecida por densas trepadeiras. Vi um sorriso do outro lado. Precisávamos tanto um do outro que eu pude sentir um respiro de alívio entre seus dentes brancos e fracos. Sempre me permiti o acaso, por isso ele sempre me contemplou. E não há sentimento mais sublime que o da amizade. O homem da janela me fascina porque me ajuda a subir essa escada vacilante que nos traz um aconchego no final do dia. Nós que já percorremos os esgotos mais imundos desse mundo suburbano nos encontramos na superfície imaginária da vida. Os dois estavam sem meias no meio da multidão, por isso se compreendiam tão bem. Enquanto as suas se encharcavam, as minhas já nem mais existiam. Momentos-instantes que nos fazem únicos e parecidos. Que dia é hoje? 6 ou 7. 8? Não importa. Vamos comemorar duplamente. Tem coisas que acontecem uma vez na vida, e outras uma vez no ano. Está ficando velho demais para dormir paciente sob o sono que se move lento. Chegará onde quiser, eu afirmo. Vamos inventar outros capítulos. E Deus é testemunha que nós não sabíamos o que procurávamos nesse bosque. Nem queremos saber o motivo. Apenas sentir o recurso de que podemos dar esse grito. Tranqüilizou-nos. Ganhei um presente, e o retibuo. – Feliz aniversário, lhe digo, meu Amigo.

15.9.09

O céu


Da morte nada sei. Hoje ainda respiro. Se a alegria me vem, sonho. Quando há dor, realidade. É triste perder alguém que se ama, ver a ultima imagem viva. Eu vago por esse campo que pra mim sempre foi um vazio. Eu gostaria de poder morrer por alguns segundos. Fecharia os meus olhos lentamente e cronometraria 20 minutos de apagão. Donde estoy yo? Pelo silencio da alma sobrevive a ausência do corpo. Como posso viver amando meu corpo? É difícil conceber a existência. Eu o vi chorando de medo. E quando via nos olhos da vida que já não existia esperança e que nada mais lhe pertencia, doía. Se há um Deus nesse mundo eu acredito. Porque no amor também creio sem o ter visto ou sentido. E mesmo sem ter certeza disso. Alguém, por favor, segure estas mãos e sufoque este momento. O escuro me pertence. Noites interrogativas que me abraçam confortavelmente. Nossa Senhora nos proteja. Poe uma longa e colorida cena para essa despedida. Não permitas, não permitas. Dê-me essa angustia. E que ele parta livre do pecado da dor. Com um peito manchado de vermelho. Ora sangue, ora amor. Cinco minutos refletidos no espelho que se quebra. Não me abandone nunca. Eu não entendo a solidão. Permaneça, pois eu já vi tanto ódio derramando nesse copo dessa mesa de jantar desse meu lar. Não é fácil mesmo. Mas eu guardo comigo a lição mais linda que você me deixou: sempre sensível. Eu vou caprichar. Eu vou.