26.7.07

Delicatessen

- Crônica de Hilda Hilst para o Correio Popular de Campinas-SP -

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.
Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

12.7.07

O Ovo e a Galinha (pequeno trecho)


A um certo modo de olhar, a um certo jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é premio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

10.7.07

PARA MEU GRANDE E AMADO AMIGO: Ro. R. LEVI (que está de férias e a quem muitos aguardam o retorno)

A canção de amor de J. Alfred Prufrock


Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?

.......

Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?

Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.

.......

E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda?
-Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale àspressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

Repartirei ao meio meus cabelos?
Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

T.S.Eliot

28.6.07

BOLO DE MARSHMALOWWWWWWW

Comi um macarrao
deitei no sofá
acordei as tres
lembrei de voce
queria te ver
deixei pra depois
assiti tv
fui passear
vou viajar
quero arrumar um emprego logo
depois engravidar
denovo
denovo denovo
nem sei se quero
só quero
um bolo de marshmalow
uma torta alemã
pular que nem uma rã
rimou neh
naum gostei
jah me esqueci de tudo
quero começar melhor
quero viver melhor
sem você
sem você e sem você
seus bando de bestas
ui
seres humanos canalhas
prefiro eu
e a valentina
linda menina
valentina
meu coracão explode
tdos os dias
de amor
de tédio
vou beber um gole
de vinho
pra vc sua besta
que perdeu seu tempo comigo

18.6.07

O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade

de Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

11.6.07

ou vc sonha
ou vc ama

CULPA

Pareço muda
Aos olhos de quem não sabe voar
na mesma direção

Talvez por isso
tanta discordia
Auto-corroo-me

Só peço
carinho e paciencia

Se não puder
não possa

já sequei

nem te preocupes

Se quiser
estenda-te e tenta
accreditar

O segredo
pode ser nosso
sonho

ou ladrão?

23.5.07

Bem alto

É muito difícil ser eu mesmo. Sinto uma dificuldade imensa em expressar verdadeiramente meus sentimentos. Já tenho uma certa idade e choro, choro com muita freqüência. Mas ninguém jamais viu isso. Engraçado. Não tenho certeza de quem realmente sou. Não quero falar muito sobre mim. Senão amanha posso não concordar. Eu comprei minha casa há um ano, foi um sonho meio poético. Moro na rua xv de novembro, esquina com a rua joão negrão. Perto do correio central. Engraçado. É uma casa mesmo, foi construída no terraço de um edifício de 20 andares. Dá pra ver da rua. Sou aposentado. Fui um grande profissional. Tive um filho com 19 anos, mas eu era muito novo para assumir. Acabei sozinho. Já admirei muitas mulheres e tive algumas nos meus braços. É isso. Vim morar aqui no alto. Tenho as estrelas quase no alcance das mãos. Engraçado. Desci os 20 andares hoje pra comprar algum alimento e umas sementes, porque fiz uma horta. E eu o encontrei.
Lá de cima observo meio que constantemente as pessoas. Tem uma mulher que vende pipocas ali na praça santos andrade. Meu santo! Ela sempre esta mastigando uma pipoca. Chega às 8 da manhã. Sai às 6 da tarde. Tem os estudantes. A fila da previdência social. Os pseudo-intelectuais que disputam o ingresso do teatro e depois vão tomar um café e fumar um cigarro e, quem sabe, fofocar ou ler um jornal. Carros e carros. E rodolfo. Eu o chamo assim. Espero que ele não se importe. Você não sabe, mas eu conheço rodolfo há muito tempo. Sinto algo de especial quando o vejo lá do alto. Mas nunca nem chego perto. Prefiro só olhar.
Rodolfo. Engraçado. Gosto da rotina dele. Muito mais do que das outras rotinas que posso observar daqui. Sei de tanta coisa...
Chega de falar de mim. Imaginem o que quiserem de um velho barbudo e grisalho que quis construir sua casa no terraço de um edifício. Engraçado. Custou caro este sonho. Podem imaginar, mas nunca vão saber o que é dormir nas nuvens.
Então vou falar do rodolfo. Meu ídolo. Um cachorro imbecil que mora no cantinho da praça. Não me pergunte qual canto. Sempre muda. E eu sempre o encontro. Observo atentamente como consegue comida ali no meio daquela multidão. Quando não consegue eu levo. Engraçado. Já joguei um pedaço de carne lá de cima e ele comeu. Admiro tanto este animal que, pra mim aqui no alto, parece mesmo que ele é gente. Melhor até que gente. Não fala. Mal late. É imperceptível. Parece autoconfiante e raramente o vejo cabisbaixo. Rodolfo, rodolfo...
Uma vez o trouxe para minha casa pelas escadas. Mentira. Trouxe pelo elevador. E depois pela escada. Porque o elevador não vem até aqui. Só até o ultimo andar mesmo. Logo percebi que ele não gostava de altura. Muita pena mesmo. Gosto dele. Cachorro imundo e sem rumo. Parece que baba.
Se eu fosse um cachorro viveria atrás de uma cadela. “Sou homem”, chorei de emoção.


Juana Dobro

1.4.07

O SUBCOBSCINETE REVELADO

Com a assinatura característica de David Cronenberg, "Mistérios e Paixões" é um dos mais desconcertantes filmes dos últimos anos. Sem paralelos entre o livro e as imagens, o filme resulta numa obra ficcional e bizarra. Transportado para década de 90, "Mistérios e Paixões", dirigido por David Cronenberg e produzido por Jeremy Thomas, é baseado no romance perturbante de William S. Burroughs, "Almoço Nu", cuja adaptação cinematográfica dá uma continuidade a obra e a vida do autor. Este alheamento da realidade, transporta-nos para um mundo ficcional com uma estrutura semelhante ao mundo real, mas que no seu ego se mostra perverso. Numa busca das nossas emoções e prazeres mais caros, explora as capacidades aparentemente ilimitadas de abstracão do ser humano, criando um universo muito próximo, onde é difícil distinguir a realidade da alucinação.
No livro de William Burroughs, "Almoço Nu" - "um momento congelado em que todos vêem o que está na ponta do garfo" -, publicado em 1959, não há estória, enredo ou continuidade, nem a intenção de entreter alguém. O autor faz uma crítica à sociedade, por meio de um retrato da Interzone, uma cidade ficcional na qual os homens se transformam em insetos durante o sexo, o destino para onde Burroughs escapou depois de na vida real, acidentalmente, ter morto a sua mulher. E ele mesmo cita que, em seu livro, a palavra é dividida em unidades que formaram uma só peça e assim deve ser tomada, mas as peças podem ser consideradas em qualquer ordem, ligadas para trás e para frente, para dentro e para fora, antes e depois, como um interessante arranjo sexual. A maior preocupação que o autor tinha com o leitor era a visão do vício como modelo de controle e como uma fuga para as repressões impostas pela sociedade, relacionadas às potencialidades biológicas da humanidade.
Burroughs foi um dos grandes nomes da prosa beatnik, primeiro movimento de contra-cultura com uma importante repercussão histórica e cultural a acontecer nos Estados Unidos. Eram jovens que se conheceram dentro e fora da universidade, interessados em escritos não ortodoxos como Rimbaud, Blake, Melville, Withman, Kafka, Nietzsche, dadaístas e surrealistas, que simplesmente pareciam não se ajustarem nas imposições assépticas dos EUA. Inquietos e marginais eram expressamente contra a Indústria Cultural e apostavam em novas alternativas de vida. Buscavam lutar pelo próprio direito, não por um mundo melhor, nem por uma revolução, mas por uma opinião individual.
Burroughs nasceu em 1917 e viveu até o ano de 1997. Herdeiro rico, formado em medicina, foi viciado em heroína por 10 anos, e o relato desse tempo está em Junky, seu primeiro livro. “Almoço Nu” foi outro livro importante de sua obra, titulado por Jack Kerouac, no qual o autor “é capaz de olhar o inferno e contar para todos o que viu”. Com uma grande importância na literatura, a obra de Burroughs influenciou muitas outras expressões artísticas com as suas criações espontâneas, surreais e libertas de qualquer padrão.
David Cronenberg não se limita a folhear "Almoço Nu" e usar para a construção da narrativa de seu filme a própria vida de William Burroughs. "Mistérios e Paixões" enquadra-se numa trilogia específica, que embora não seja indiferente ao tema do corpo, explora abertamente a questão da capacidade da mente para controlar o nosso comportamento e o nosso destino. O poder imaginativo da mente afetada pela droga está presente em quase todas as cenas do filme. Uma viagem pela mente, onde o corpo se assume como protagonista, resulta no exagero dos devaneios do estado de psicose que o dedetizador William Lee (interpretado por Peter Weller) mergulha, chegando ao ponto de matar sua mulher (interpretada por Judy Davis), viciada em dedetê. Fato responsável pela fuga de Lee para a Interzone, uma cidade onde tudo é permitido.
A liberdade criativa do realizador, baseada num fascínio pela vida e obra de William Burroughs, resultaram num filme que ultrapassa as expectativas, ao transpor para o grande cinema a imaginação do universo de Burroughs, povoando as imagens da nossa experiência com fragmentos do mundo.