1.3.11

(…)

“Mas um velho de aspecto venerando
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

– ‘O glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Com aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

‘Dura inquietação d’alma e da vida
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com que se o povo néscio engana!”

(Camões em “Os Lusíadas”; estrofes 94, 95 e 96 do canto quarto).

Nao sei se voce se lembra

“Então, não sei se você se lembra, nos veio aquela vontade súbita de comer siris. Havia anos que nós não comíamos siris e a vontade surgiu de uma conversa sobre os almoços de antigamente. Lembro-me bem — e não sei se você se lembra — que o primeiro a ter vontade de comer siris fui eu, mas que você aderiu logo a ela, com aquele entusiasmo que lhe é peculiar, sempre que se trata de comida ou de mulher.

Então, não sei se você se lembra, começamos a rememorar os lugares onde se poderia encontrar uma boa batelada de siris, para se comprar, cozinhar num panelão e ficar comendo de mãos meladas, chão cheio de cascas do delicioso crustáceo e mais uma para rebater de vez em quando. E só de pensar nisso a gente deixou pra lá a vontade pura e simples e passou a ter necessidade premente de comer siris.

Então, não sei se você se lembra, telefonamos para o Raimundo, que era o campeão brasileiro de siris e, noutros tempos, dava famosos festivais do apetitoso bicho em sua casa. Ele disse que, aos domingos, perto do Maracanã, havia um botequim que servia siris maravilhosos, ao cair da tarde. Não sei se você se lembra que ele frisou serem aqueles os melhores siris do Rio, como também os únicos em disponibilidade, numa época em que o siri anda vasqueiro e só é vendido naquelas insípidas casquinhas.

Ah… foi uma alegria saber que era domingo e havia siris comíveis e, então, nos dois — não sei se você se lembra — apesar da fome que o uisquinho estava nos dando — resolvemos não almoçar para ficar com mais vontade ainda de comer siris. Passamos incólumes pela refeição, enquanto o resto do pessoal entrava firme num feijão que cheirava a coisa divina do céu dos glutões. O pessoal — aliás — achava que era um exagero nosso, guardar boca para um siri que só comeríamos à tarde, porque podíamos perfeitamente ter preparo estomacal para eles, após o almoço.

Mas — não sei se você se lembra — fomos de uma fidelidade espartana aos siris. Saímos para o futebol com uma fome impressionante e passamos o jogo todo a pensar nos siris que comeríamos ao sair do Maracanã.

Então — não sei se você se lembra — saímos dali como dois monges tibetanos a caminho da redenção e chegamos no tal botequim. Então — não sei se você se lembra — que a gente chegou e o homem do botequim disse que o siri já tinha acabado.”

(Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, em “Não sei se você se lembra”)

28.2.11

A seguir

Passou tão rápido. O que? O ano-novo. Ela nao sabia contar , mas sabia inventar. Oras, tem molho de tomate na geladeira. E se você nao percebe quem esta naquela janela, atras das cortinas manchadas de sangue(?).Ora, se você nao percebe. Quem será eu (?). Nao perca a tragetoria de um profissional que desafiou o próprio destino que poderia ter sido. Quinta: as oito da noite.

7.2.11

Kafka


"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se cada vez mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro". - "Você precisa mudar de direção", disse o gato, e devorou-o."

4.1.11

Maresia em janeiro

Esqueletestoscópios atléticos de beira de praia em dia de sol. A vida é crua, nua e tostada para alguns. Não há no mar um sustento para a alegria. Tudo nos permite mais. Eu pensei muito em algo que disse antes de ontem para minha consciência arbitrária: (não posso esclarecer aqui). Mas a luta diária dessa coisa marginal que nos devora é inevitável! Seria simples demais e, nesse caso, a simplicidade não me atrai. Embora seja em mim essa a busca eterna. Por um momento, eu tento, mas temo. Ai de mim se e fosse o que deveria ser. Só que eu sofro de enxaquecas e ainda não me curei. Vou mergulhar a noite porque me dá mais prazer.

26.12.10

Ferias no peito apaixonado

Os traços do desejo, os traços nao sao os mesmos. Eu tento ser forte todos os dias. Entretanto nao queria nao queria. Nao quero ver a alma lavada no esgoto rondado por massas de gordura imoveis no meio de tudo, nao devo. Me sinto solitaria por querer paz e infanica, me sinto solitaria por querer paz e infancia me sinto solitaria por querer paz e infancia ao invés de dinheiro dinheiro e estupidez. Ninguem sabe nada sobre o Outro. Amor nao existe! Mas eu temo acreditar nisso.

15.12.10

Rei é meu coração

Espera o dia com ansiedade de cão. Como uma vagabunda mal criada atirada na esquina, espera. Nas ruas os homens com jeito de rei. Ela tentava se levantar daquele vão. Olha para os lados e tem plena consciencia da situaçao que se fez a ela vida. Não há chance de sobreviver quando se espera velocidade na contramão. Ninguem sabe o que acontecia com aquele corpo tonto que o vestido cobria no domingo matinal após a missa de sétimo dia de nascimento da vitória à solidao. A menina cruzou as pernas deixando a saia subir provocantemente propositalmente. Isso também serve como protesto aos bundões que metem a mao no bolso quando bem entendem. Carmem olha fitamente o sol envergonhado daquela manhã dominical: meu coraçao agora faca outrora sofre descalço a vergonha de ser. Beijos, meu irmão. Judas na proxima encarnaçao.

Juana Dobro

1.12.10

Modelo Panoramico

Ela ficava sempre ali sentada na ponta do balcão como se esperasse algum tipo de atitude, mas tudo lhe era dado como espera. Sem dúvida a noite facilita algumas coisas. Tem dias que, como um cachorro quando se assusta com a chuva noturna, ela temia a meia noite. E no infinito só via a beleza que se ocultava nos olhos alheios aos seus. Era outono aquele tempo e não se via mar onde ela morava. A cama desarrumada descascava nos pés a madeira envelhecida. Tanto quanto quem nela se deitava: que se era jovem nos anos mas velha nas feridas. Por isso de sua aparência rugosa e hostil. Se dizia feliz naquela época em que sentava entre a janela florida e a penteadeira de mogno na qual preferia não encostar (era costume nao tirar o brilho do lustro). Já tinha passado das 17:00 hrs e percebeu que chorava diante do filme meloso que se soubesse não o teria visto. Ninguém deveria suportar os clichês da vida adulta. Rá! Risos são indispensáveis. E aí nesse ponto ela sempre toma a sabia decisão mesma de sempre: partir, com um ou dois soluços apenas.


Juana Dobro

23.10.10

A Ferida

“Esta noite… esta chuva… estas reticências. Sei lá.

Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?

Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

— Estou me sentindo assim, assim, assim…

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.

Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.

E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”.

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.

Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.

Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

— Que é que houve? O senhor está mais velho?

Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos…

Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

(Antonio Maria, em “Com vocês Antônio Maria”).