28.2.11

A seguir

Passou tão rápido. O que? O ano-novo. Ela nao sabia contar , mas sabia inventar. Oras, tem molho de tomate na geladeira. E se você nao percebe quem esta naquela janela, atras das cortinas manchadas de sangue(?).Ora, se você nao percebe. Quem será eu (?). Nao perca a tragetoria de um profissional que desafiou o próprio destino que poderia ter sido. Quinta: as oito da noite.

7.2.11

Kafka


"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se cada vez mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro". - "Você precisa mudar de direção", disse o gato, e devorou-o."

4.1.11

Maresia em janeiro

Esqueletestoscópios atléticos de beira de praia em dia de sol. A vida é crua, nua e tostada para alguns. Não há no mar um sustento para a alegria. Tudo nos permite mais. Eu pensei muito em algo que disse antes de ontem para minha consciência arbitrária: (não posso esclarecer aqui). Mas a luta diária dessa coisa marginal que nos devora é inevitável! Seria simples demais e, nesse caso, a simplicidade não me atrai. Embora seja em mim essa a busca eterna. Por um momento, eu tento, mas temo. Ai de mim se e fosse o que deveria ser. Só que eu sofro de enxaquecas e ainda não me curei. Vou mergulhar a noite porque me dá mais prazer.

26.12.10

Ferias no peito apaixonado

Os traços do desejo, os traços nao sao os mesmos. Eu tento ser forte todos os dias. Entretanto nao queria nao queria. Nao quero ver a alma lavada no esgoto rondado por massas de gordura imoveis no meio de tudo, nao devo. Me sinto solitaria por querer paz e infanica, me sinto solitaria por querer paz e infancia me sinto solitaria por querer paz e infancia ao invés de dinheiro dinheiro e estupidez. Ninguem sabe nada sobre o Outro. Amor nao existe! Mas eu temo acreditar nisso.

15.12.10

Rei é meu coração

Espera o dia com ansiedade de cão. Como uma vagabunda mal criada atirada na esquina, espera. Nas ruas os homens com jeito de rei. Ela tentava se levantar daquele vão. Olha para os lados e tem plena consciencia da situaçao que se fez a ela vida. Não há chance de sobreviver quando se espera velocidade na contramão. Ninguem sabe o que acontecia com aquele corpo tonto que o vestido cobria no domingo matinal após a missa de sétimo dia de nascimento da vitória à solidao. A menina cruzou as pernas deixando a saia subir provocantemente propositalmente. Isso também serve como protesto aos bundões que metem a mao no bolso quando bem entendem. Carmem olha fitamente o sol envergonhado daquela manhã dominical: meu coraçao agora faca outrora sofre descalço a vergonha de ser. Beijos, meu irmão. Judas na proxima encarnaçao.

Juana Dobro

1.12.10

Modelo Panoramico

Ela ficava sempre ali sentada na ponta do balcão como se esperasse algum tipo de atitude, mas tudo lhe era dado como espera. Sem dúvida a noite facilita algumas coisas. Tem dias que, como um cachorro quando se assusta com a chuva noturna, ela temia a meia noite. E no infinito só via a beleza que se ocultava nos olhos alheios aos seus. Era outono aquele tempo e não se via mar onde ela morava. A cama desarrumada descascava nos pés a madeira envelhecida. Tanto quanto quem nela se deitava: que se era jovem nos anos mas velha nas feridas. Por isso de sua aparência rugosa e hostil. Se dizia feliz naquela época em que sentava entre a janela florida e a penteadeira de mogno na qual preferia não encostar (era costume nao tirar o brilho do lustro). Já tinha passado das 17:00 hrs e percebeu que chorava diante do filme meloso que se soubesse não o teria visto. Ninguém deveria suportar os clichês da vida adulta. Rá! Risos são indispensáveis. E aí nesse ponto ela sempre toma a sabia decisão mesma de sempre: partir, com um ou dois soluços apenas.


Juana Dobro

23.10.10

A Ferida

“Esta noite… esta chuva… estas reticências. Sei lá.

Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?

Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

— Estou me sentindo assim, assim, assim…

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.

Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.

E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”.

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.

Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.

Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

— Que é que houve? O senhor está mais velho?

Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos…

Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

(Antonio Maria, em “Com vocês Antônio Maria”).

20.10.10

Me conceda uma valsa...

http://www.youtube.com/watch?v=3UYEZnhnVCg

18.10.10

POEma

Só



Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.

Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.




Edgar Allan Poe (Tradução de Oscar Mendes)