7.10.09

Na academia com Madonna


Uma história verdadeira de tempos fabulosos. Eu bati na janela errada. Naquela casa obscurecida por densas trepadeiras. Vi um sorriso do outro lado. Precisávamos tanto um do outro que eu pude sentir um respiro de alívio entre seus dentes brancos e fracos. Sempre me permiti o acaso, por isso ele sempre me contemplou. E não há sentimento mais sublime que o da amizade. O homem da janela me fascina porque me ajuda a subir essa escada vacilante que nos traz um aconchego no final do dia. Nós que já percorremos os esgotos mais imundos desse mundo suburbano nos encontramos na superfície imaginária da vida. Os dois estavam sem meias no meio da multidão, por isso se compreendiam tão bem. Enquanto as suas se encharcavam, as minhas já nem mais existiam. Momentos-instantes que nos fazem únicos e parecidos. Que dia é hoje? 6 ou 7. 8? Não importa. Vamos comemorar duplamente. Tem coisas que acontecem uma vez na vida, e outras uma vez no ano. Está ficando velho demais para dormir paciente sob o sono que se move lento. Chegará onde quiser, eu afirmo. Vamos inventar outros capítulos. E Deus é testemunha que nós não sabíamos o que procurávamos nesse bosque. Nem queremos saber o motivo. Apenas sentir o recurso de que podemos dar esse grito. Tranqüilizou-nos. Ganhei um presente, e o retibuo. – Feliz aniversário, lhe digo, meu Amigo.

15.9.09

O céu


Da morte nada sei. Hoje ainda respiro. Se a alegria me vem, sonho. Quando há dor, realidade. É triste perder alguém que se ama, ver a ultima imagem viva. Eu vago por esse campo que pra mim sempre foi um vazio. Eu gostaria de poder morrer por alguns segundos. Fecharia os meus olhos lentamente e cronometraria 20 minutos de apagão. Donde estoy yo? Pelo silencio da alma sobrevive a ausência do corpo. Como posso viver amando meu corpo? É difícil conceber a existência. Eu o vi chorando de medo. E quando via nos olhos da vida que já não existia esperança e que nada mais lhe pertencia, doía. Se há um Deus nesse mundo eu acredito. Porque no amor também creio sem o ter visto ou sentido. E mesmo sem ter certeza disso. Alguém, por favor, segure estas mãos e sufoque este momento. O escuro me pertence. Noites interrogativas que me abraçam confortavelmente. Nossa Senhora nos proteja. Poe uma longa e colorida cena para essa despedida. Não permitas, não permitas. Dê-me essa angustia. E que ele parta livre do pecado da dor. Com um peito manchado de vermelho. Ora sangue, ora amor. Cinco minutos refletidos no espelho que se quebra. Não me abandone nunca. Eu não entendo a solidão. Permaneça, pois eu já vi tanto ódio derramando nesse copo dessa mesa de jantar desse meu lar. Não é fácil mesmo. Mas eu guardo comigo a lição mais linda que você me deixou: sempre sensível. Eu vou caprichar. Eu vou.

28.8.09

Carmem, 301


Acabou a musica, pode ir embora.
Vestiu-se e foi desaparecendo naquela noite escura. Soube naquele momento que não deveria ser o único a sofrer de insônia. Essa voz também a perturbava. Nada parece exclusivo nessa estúpida vida. E digo estúpida também para as boas gozadas que le ocorrem em pleno dia. Não só de pão vive o homem. Ao menos, se a mulher lhe ensinaria. E se só a desprezo, ela o diria: que assim permaneça a pétala crua ferida. Não é por dor que calo seu desejo. Tenho um tempo a cumprir e que se cumpra dessa face senão outra poderosa e rouca toma vez deste lugar.
Foi assim que se sucedia. Um vinha, outro ia, um vinha, outro ia. Não se fez valsa, muito menos tango. O compasso deve no mínimo ser binário. Com ela não. Ela percorria qualquer melodia como quem borda ponto a ponto com uma agulha dura e grossa. Foi então que um, apenas um daqueles soldados falou o que foi a primeira palavra pronunciada e ouvida, direcionada a a, à Ela. E mais algumas letras. “Tinha tudo para dar certo”. Ela o sorriu e disse baixo, suficiente para não ser ouvida nem por ninguém: eu, Macabéia.

22.7.09

Por serem capazes

"Não, Arturo, nunca houve um mar. Você sonha e deseja, mas atravessa a terra desolada. Nunca verá o mar de novo. Era um mito em que certa vez acreditou. Mas tenho de sorrir, porque o sal do mar está no meu sangue e podem existir dez mil estradas sobre a terra, mas nunca irão me confundir, pois o sangue do meu coração sempre voltará para a bela fonte"

John Fante – Pergunte ao Pó

10.7.09

Inlolupiaveis seres estramunos

Perdi minha alma
caiu por ai
se encheu de lama
e até goma de mascar jogaram em cima dela

Nacionalista que era
que foi um dia
quando ainda estava em minha posse
minha alma verde amarela

Hoje colho os olhos que plantei
antes que virem ilusões
os matei

Aí ói surucucu do mato
Me sufoque pro mundo
Para esse mundo que só vê o que é exato

Eu nao perdoo
a falta de amor
porque amor é coisa pouca
que se acha jogado em qualquer cama
Mas que sobrevive aos poucos
elementos nulos
dos suburbios humanos

O ocuo

Perplexo. Assusto-me com os vultos que me perseguem. Eis que a muito tempo seus valores não são mais os nossos. Eu o educaria bem depressa. Mas sendo depressa com pressa não poderia. Posso então bater as botas com meu pobre coração esbugalhado e poucas pessoas sentirão isso e isso me deixa mal. Inquieta. Jésuis me salve desse pranto. Ando evitando as palavras. Alma oca. Você ja passou um tempo sem sentir nada? Absoluto vazio? Os sentimentos do mundo cansaram de sufocar e alegrar esse corpinho pegajoso que minha mãe fez tão bonitinho e ordinário pro mundo? Entao entre para o clube do vácuo. O vácuo que não é o marido da vaca nem marido de ninguem. Aqui no vácuo só cabem aqueles que mesmo sozinhos ainda não se sentem suficientemente sós como gostariam. Chega de livros, filmes, discos, msn, orkut, novelas, pensamentos, imaginações, abstrações. É a morte da alma. Da alma virtual também. Aí o professor pergunta pro aluno: que é que tua mãe faz? Ela é substituta. Substituta do que? Substituta da minha tia que é prostituta. A vida é dura. "A vida é crua." Inovar já é ultrapassado demais para alguém qualquer como eu. E foi assim que os papéis permaneceram em branco. Sem manchas, sem tintas. Sem cinzas de cigarro, sem absolutamentes. Aqui jazem meus eus. Entre mil flores e bosques plantados por esses heróis imigrantes. Sem mais saudades.

1.7.09

SEXTA-FEIRA NEGRA - david goodis

“-deus do céu - disse ele, porque mesmo com o sobretudo ainda estava tremendamente frio, e sorriu ao recordar que fora exatamente por isso que deixara a universidade, porque aqueles invernos da filadélfia eram simplesmente demais para ele. lembrou de um dia tão deplorável quanto um dia pode ser sem chuva ou neve, mas um dia frio e cinzento com a obscuridade suspensa sobre céus e ruas, e então decidiu que não precisava enfrentar aquele tipo de clima, mesmo que gostasse da atmosfera da universidade e das coisas que aprendia lá. portanto arrumou seus pertences e pegou um trem, usufruindo a luxúria que é cair fora de alguma coisa na qual não se tem mais interesse. mas agora não havia como cair fora, havia apenas fuga. e há uma enorme diferença entre cair fora e fugir.”

SEXTA-FEIRA NEGRA - david goodis - p. 11

5.6.09

GOSTOSA!

O copo caiu de sua mão, estilhaçou. Não jorrou sangue de sua alma pecadora. Ela ri da vida que lhe cabe. Com os sentimentos brinca, prostitui-os. Sai de cena quando quer respirar.
É por isso que eu confio com dificuldade nela. Porque a dor vem a ela como neve e vai dela como fogo. É um mito sensitivo. Contávamos as notas daquele dia de trabalho. Uma por uma miudeza de números tão chatos de se somar. Se não fosse por aquele dinheiro nunca estaríamos seduzindo essa infelicidade. É o desapego que me cabe nos pensamentos do dia. E nós íamos de ia em ia sem saber que você sabia onde isso iria chegar.
Estrada Velha. Pedi a ela para não se assustar com o que eu lhe disse. Afinal, nem sempre a verdade se concretiza. Sabemos bem o gosto do alimento que nos agrada o paladar. Pálidas! Contornamos as situações e voltamos caladas. Não foi medo não. É que o cabelo dela estava oleoso. (“Não gosto de sair com os cabelos oleosos. Sinto-os pesando meu corpo.”) Higiene é essencial para mulheres como nós. E como nós não somos amigas íntimas eu nunca soube se tudo tinha dado certo. Foi uma tentativa. A primeira delas.
Mas eu devo admitir que é bom demais da conta ser dona do mundo. Desde que ficamos famosas nas páginas vermelhas, minha vida tem se tornado muito mais estúpida e gostosa!

1.6.09

Um trecho de algumas notas em algum subsolo

O fim dos fins, senhores, é não fazer nada, absolutamente nada. A inércia contemplativa é preferível seja ao que for. Assim pois, viva o subsolo! Se bem, que eu tenha dito antes que inve­java o homem normal até a derradeira gota da minha bílis, quando o vejo tal qual é, renuncio ao ser normal (não cessando todavia de ter inveja dele). Não! não! apesar de tudo o subsolo vale mais. Lá ao menos se pode… Ah! cá que minto de novo! Minto, porque sei, tão claramente quanto duas vezes dois são quatro, que não é o subsolo que vale mais, mas algo muito dife­rente a que aspiro, mas que não posso descobrir. Para o diabo o subsolo!

Se eu pudesse crer ao menos numa só palavra do que escrevo aqui! juro‑vos, senhores, que não creio em uma só palavra, em uma única e miserável palavrinha! Ou melhor dizendo: creio, talvez, mas sinto no mesmo momento, suspeito, não sei por quê, que minto descaradamente.

‑ Mas, nesse caso, por que escreveu tudo isto? ‑ pergun­tareis certamente.

Que teríeis dito se eu vos tivesse encerrado durante quarenta anos, sem fazer nada, e se, decorrido esse tempo, eu fosse visi­tar‑vos no vosso subsolo para verificar no que vos tínheis tornado?

Bem que eu gostaria de vos ver lá! Pode‑se deixar durante quarenta anos um homem só e sem ocupação?

“Mas não é vergonhoso, não é humilhante!” ‑ me direis talvez, meneando a cabeça, com desprezo, ‑ “Você tem sede de vida, mas quer resolver as questões vitais por meio de mal­‑entendidos lógicos. E que obstinação! Que impudência com isso!

Mas tem medo, apesar de tudo. Você diz inépcias, mas sente‑se feliz com elas. Diz insolências, mas tem medo e se desculpa. Declara que não receia ninguém, mas busca as nossas boas graças. Você nos assegura que range os dentes, mas graceja ao mesmo tem­po, para nos fazer rir. Sabe que as suas sentenças não valem nada, mas parece muito satisfeito com a sua literatura. É possível que você tenha sofrido, mas não tem nenhum respeito pelo. seu sofri­mento. Há certa verdade em suas palavras, mas falta‑lhes pudor. Sob a ação da vaidade mais mesquinha, você traz a sua verdade t para a praça pública, expõe‑na no mercado, para alvo de chacota. Você tem alguma coisa a dizer, mas o temor faz‑lhe escamotear a última palavra, pois é insolente, mas não audaz. Gaba a sua consciência, mas não é capaz senão de hesitação, porque embora sua inteligência trabalhe, seu coração está emporcalhado pela libertinagem; ora, se o coração não é puro, a consciência não pode ser clarividente, nem completa. E como você é importuno, como é molesto! Que palhaçada, a sua! Mentira tudo isso! Mentira! Mentira!”

Todas estas palavras, fui eu quem mas “, evidentemente. Elas também provêm do subsolo. Durante quarenta anos, prestei atenção por uma pequena fenda a esses discursos. Eu próprio os compus, pois não tinha outra coisa a fazer. Por isso foi‑me fácil decorá‑los e imprimir‑lhes; uma forma literária.

Mas, pudestes crer, verdadeiramente, que eu ia imprimir tudo isto e vo‑lo dar para ler? E eis ainda o que não compreendo: por que me dirijo a vós, chamando‑vos de “senhores”, como se fósseis leitores meus? Não se publicam, não se dão a ler a nin­guém as confidências que eu me preparo para fazer aqui. EU, em todo o caso, não sou suficientemente forte para agir assim, e, de resto, não vejo a necessidade disso. Mas, vede, veio‑me alma fantasia, e quero realizá‑la custe o que custar. Eis do que se trata:

Entre as lembranças que cada um de nós possui, há algumas que não contamos senão aos nonos amigos. Há outras ainda que não confessaremos nem mesmo aos nossos amigos, que não repe­tiremos senão a nós mesmos, e aliás, sob o signo do segredo. Mas existem enfim coisas que o homem não consente nem em confessar a si mesmo. No curso de sua existência, todo homem honesto acumulou dessas lembranças suficientemente. Direi mesmo que seu número é tanto mais importante, quanto o homem é mais honesto. Eu, em toda o caso, não faz muito tempo que me decidi a me lem­brar de certas antigas aventuras minhas; até aqui, evitei‑as, e não sem um tanto de inquietação. Ora, agora, quando as evoco e quero mesmo anotá‑las, agora tenho a prova: é possível ser franco e sincero, ao menos cara a cara consigo mesmo, e poder‑se‑á dizer toda a verdade? Observarei a este propósito que Heine assegura que não podem existir autobiografias exatas, e que o homem mente sempre, quando fala de si mesmo.. Rousseau, com seu ponto de vista, certamente nos enganou nas sua Confissões e mesmo delibe­radamente, por vaidade. Estou certo de que Heine tem razão: compreendo muito bem que nos possamos sobrecarregar de crimes abomináveis, apenas por vaidade, e compreendo também o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões pú­blicas; ora, eu não escrevo senão para mim sozinho e declaro de lima Vez por todas que, se pareço dirigir‑me ao leitor, é simples­mente iam processo de que me sirvo para maior facilidade. Não é senão uma forma, uma forma vazia; e quanto aos leitores, não. os terei jamais. já o declarei.

Não quero ser incomodado em nada na redação das minhas notas. Não observarei nenhuma ordem, nenhum sistema. Escre­verei simplesmente o que me lembrar.

Mas vós poderíeis me pegar na palavra desde o começo e me perguntar: se é verdade que não pensa em seus leitores, por que então combina consigo mesmo ‑ e no papel ‑ ainda! ‑ que não observará nenhuma ordem, nenhum sistema, que registrará o que lhe passar pela cabeça, etc.? Por que se explica? Por que essas desculpas ?

Pois bem! eis aí! é assim!

Há, de resto, aí, um caso psicológico interessante. É possível que eu seja muito simplesmente um covarde. Mas é possível também que imagine diante de mim um público, a fim de não perder o sentido das ‑conveniências. É possível ter milhares desses motivos…

Mas há ainda outra coisa: por que, em suma, pus‑me a escre­ver?’ Se não é para o público, não posso evocar minhas lem­branças sem as lançar ao papel?

Com efeito, mas quando estiverem fixadas no papel, adqui­rirão um aspecto mais solene. Isto me constrangerá, julgar‑me‑ei melhor e meu estilo ganhará. Demais, é possível que isto me traga certo consolo. Assim, hoje, estou particularmente oprimi­do por uma lembrança longínqua; surgiu em mim muito nitida­mente há alguns dias, e, desde então, me persegue sem tréguas, como um desses motivos musicais que não pretendem vos largar. Ora, é preciso absolutamente que eu me desembarace dela. Tenho centenas de recordações desse gênero; mas uma delas às vezes des­perta de súbito e me agarra pela garganta. Eu imagino, não sei mesmo por quê, que se a registrar, ficarei livre. Por que não tentaria?

E depois, enfim, eu me aborreço e nunca faço nada. Escrever as lembranças é um trabalho. Diz‑se que o trabalho torna o ho­mem bom e honesto. É então uma oportunidade que se me ofe­rece…

Fiódor Dostoiévski