12.9.07
ENTENDA-ME BEIBE
E aceitei o destino impiedoso
Daquela que agora com o rosto nu
Desfaz a máscara de mulher
Eu não sou mais uma flor
“sou um palhaço pensativo”
De lábios encarnados
Enquanto isso envelheço
Sem o peso da eternidade sobre mim
Posso começar tudo novamente com os pés no chão
Que termino descalça acima das nuvens
Engraçado é a vida
Esperar que algo amadureça
É uma experiência sem par
Como no reino vegetal
Ó rúculas azedas
Nem sempre gosto de saborear
Muito me cansa
Muito me cansa esperar
11.9.07
Portfolio da Derrota - Poema
Tendo perdido empáfia e ego meus
Trago o corpo lanhado
Das surras que apanhei calado
Do rastejar que rastejei
No fundo do fundo onde andei
(achei o poema num blog perdido)
3.9.07
E a responsabilidade, por onde anda?
Não acho cabível que dezenas de pessoas aguardem o atendimento pelo SUS nos postos e hospitais, enquanto outras se dirigem a “portinha ao lado” e recebem atendimento imediato quando PAGO. Esta não é uma realidade apenas da minha cidade, muito menos do meu Estado. Mas acredito que, ao menos para mim, é muito mais constrangedor se dirigir, silenciosamente, à “portinha ao lado” do que aguardar tranquilamente na fila.
Pior que isso, muitas vezes, é o atendimento recebido. Existe um grave descaso que separa os pacientes que pagam dos que não pagam. E o atendimento, que deveria ser igual, é muitas vezes diferenciado. O paciente sabe que a saúde não tem recursos suficientes, que o sistema de saúde é precário. Mas o profissional não pode levar isso como justificativa.
Então eu quero, como tantas pessoas gostariam de fazer, desabafar para que (e isso vale para diversas profissões) as pessoas assumam suas responsabilidades. Ainda mais quando essa responsabilidade é uma vida. “Crise de responsabilidade”, foi o termo empregado por um prefeito de uma cidade do Nordeste. Termo muito bem empregado, diga-se de passagem. Usar como desculpa a falta de recursos e a corrupção é praticar a mesma. Responsabilidade, antes mesmo da ética.
É claro que existe uma grande pressão em cima destes profissionais. É compreensível. Mas alguns são sistematicamente estúpidos. Atendem mal, examinam rapidamente e não dão nenhuma atenção cordial à pessoa que o chama de DOUTOR. Para finalizar, entregam uma receita ilegível. Isso depois de perder horas esperando a consulta, que durou 10 minutos.
Se essa culpa fosse dos governantes, não teriam profissionais atendendo carinhosamente, com respeito e interesse. Pois é, ainda existem muito médicos que acolhem o paciente e se preocupam com cada um dos muitos casos que recebem no dia-a-dia. Sentam e escutam, mesmo quase sem tempo, o que o paciente tem a lhes dizer. Hipócrates, tão antigo, já dizia: “a arte da medicina está em observar”. Para o paciente interessa mais saber o que lhe acontecerá nos dias seguintes do que o nome de sua doença. Explicar claramente a natureza da enfermidade e como agir para enfrentá-la alivia a angústia de estar doente e aumenta a probabilidade de adesão ao tratamento. Salvar vidas não é a missão impossível do médico, mas é a conseqüência da verdadeira missão: que é aliviar o sofrimento.
Só para concluir: “Em decisão unânime, a 3ª turma do Tribunal Regional Federal (TRF) deu um prazo de 30 dias para que o Sistema Único de Saúde inclua a cirurgia de mudança de sexo na lista de procedimentos cirúrgicos. Se a norma for descumprida, o SUS terá que pagar multa diária de R$ 10 mil.” Então eu pergunto para o ser que formulou isso: você já precisou entrar numa fila para aguardar uma cirurgia gratuita para aliviar seu sofrimento ou de algum de seus familiares? Acho que existem prioridades. O respeito é a primeira delas.
31.8.07
CARROSSEL DOS ESQUISITOS
"sou mais um no carrossel
dos esquisitos
gente feia a girar
nao é bonito?
juntos vamos celebrar
esta nossa palidez
que nao da pra disfarcar
como abutres no céu
sao quase lindos
dois feiosos a rodar
gritando e rindo
sao aberrações no ar
oh meu querido
fecha os olhos pra me beijar
que o mundo vai-se acabar
menos pra ti e pra mim
enquanto eu nao te olhar
de tao perto assim
pra nao me assustar
se uma bomba nuclear
tem a sua beleza
gente feia tem também
nem mesmo mata ninguém
que nao mereça sim
morrer por ser ruim
por fazer sofrer
quem me quer assim
sobramos só nós dois
ninguém pra comparar
o nosso bolo de arroz
com champanhe e caviar"
29.8.07
DE SAO BENTO DO SUL para o blog de Crislaine
São Bento do Sul, como toda boa cidade do interior do Brasil, não poderia deixar de ter uma festa sua também. É a Schlachtfest, uma forma de celebrar tudo o que de bom não falta nesse município: como alegria, boa música, danças típicas, mulheres bonitas, mesas fartas e a união de todo um povo, que apesar das inúmeras dificuldades que assolam a vida, não deixa de ser feliz e trabalhar para fazer da cidade um lugar cada vez melhor de se viver.
Nessa festa temos tudo o que falta nas grandes cidades, já que todos por aqui se conhecem e dividem um mesmo espaço urbano. Aqui, por exemplo, é muito mais divertido ir a um baile do que a um grande show, ou também porque aqui podemos, sim, celebrar a vida como jamais se faria em um grande centro. Quando que em uma capital poderíamos curtir a valer um “Desfile para a Rainha da Festa”, com moças tão belas que fazem as estrelas brilhar mais sobre o céu de São Bento, o desfile das ruas, onde todos se reúnem felizes, seja para desfilar, seja para assistir, ou um bom “torneio de canecos” onde a mais ilustre autoridade da cidade pode competir democraticamente com o mais humilde trabalhador?!
Isso tudo sem falar no parquinho de diversões onde todos são jovens, comem pipocas, algodão doce, e se refestelam com maçãs do amor.
Nada pode ser mais saudável que um sorriso estampado de orelha a orelha no rosto de quem dá à festa um verdadeiro significado.
Os preparativos não param e a 26ª Schlachfest promete mais uma vez superar as expectativas da população da cidade, que aguarda ansiosa o evento. As programações, a decoração e as comidas típicas, além dos inúmeros alemães da cidade, que vão trajados a festa, fazem nos sentir um pouquinho europeus, mas com uma euforia típica do Brasil.
27.7.07
SUGESTÃO
As descobertas vinham confusas
Daí a graça
Rosto e Corpo
Ele só quer é viver
Com os olhos atentos ao sangue grosso de suas veias
Chora-menino
Pega essa onda escura de amor
e mergulhe
Dentro de si
Homem maluco
Já desejei o teu gozo
Charme oculto em versos negros
Fecha a luz e os olhos
tenta dormir
Porque quero te pedir
Fortemente
Sem respirar
Fica sempre comigo
Amigo Orgânico.
26.7.07
Delicatessen
Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.
Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.
12.7.07
A um certo modo de olhar, a um certo jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é premio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
10.7.07
PARA MEU GRANDE E AMADO AMIGO: Ro. R. LEVI (que está de férias e a quem muitos aguardam o retorno)
Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.
E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.
Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?
E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?
E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
.......
Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?
Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
.......
E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.
E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda?
-Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale àspressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."
Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.
Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.
Repartirei ao meio meus cabelos?
Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.
Não creio que um dia elas cantem para mim.
Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.
Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.
T.S.Eliot