18.6.07

O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade

de Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

11.6.07

ou vc sonha
ou vc ama

CULPA

Pareço muda
Aos olhos de quem não sabe voar
na mesma direção

Talvez por isso
tanta discordia
Auto-corroo-me

Só peço
carinho e paciencia

Se não puder
não possa

já sequei

nem te preocupes

Se quiser
estenda-te e tenta
accreditar

O segredo
pode ser nosso
sonho

ou ladrão?

23.5.07

Bem alto

É muito difícil ser eu mesmo. Sinto uma dificuldade imensa em expressar verdadeiramente meus sentimentos. Já tenho uma certa idade e choro, choro com muita freqüência. Mas ninguém jamais viu isso. Engraçado. Não tenho certeza de quem realmente sou. Não quero falar muito sobre mim. Senão amanha posso não concordar. Eu comprei minha casa há um ano, foi um sonho meio poético. Moro na rua xv de novembro, esquina com a rua joão negrão. Perto do correio central. Engraçado. É uma casa mesmo, foi construída no terraço de um edifício de 20 andares. Dá pra ver da rua. Sou aposentado. Fui um grande profissional. Tive um filho com 19 anos, mas eu era muito novo para assumir. Acabei sozinho. Já admirei muitas mulheres e tive algumas nos meus braços. É isso. Vim morar aqui no alto. Tenho as estrelas quase no alcance das mãos. Engraçado. Desci os 20 andares hoje pra comprar algum alimento e umas sementes, porque fiz uma horta. E eu o encontrei.
Lá de cima observo meio que constantemente as pessoas. Tem uma mulher que vende pipocas ali na praça santos andrade. Meu santo! Ela sempre esta mastigando uma pipoca. Chega às 8 da manhã. Sai às 6 da tarde. Tem os estudantes. A fila da previdência social. Os pseudo-intelectuais que disputam o ingresso do teatro e depois vão tomar um café e fumar um cigarro e, quem sabe, fofocar ou ler um jornal. Carros e carros. E rodolfo. Eu o chamo assim. Espero que ele não se importe. Você não sabe, mas eu conheço rodolfo há muito tempo. Sinto algo de especial quando o vejo lá do alto. Mas nunca nem chego perto. Prefiro só olhar.
Rodolfo. Engraçado. Gosto da rotina dele. Muito mais do que das outras rotinas que posso observar daqui. Sei de tanta coisa...
Chega de falar de mim. Imaginem o que quiserem de um velho barbudo e grisalho que quis construir sua casa no terraço de um edifício. Engraçado. Custou caro este sonho. Podem imaginar, mas nunca vão saber o que é dormir nas nuvens.
Então vou falar do rodolfo. Meu ídolo. Um cachorro imbecil que mora no cantinho da praça. Não me pergunte qual canto. Sempre muda. E eu sempre o encontro. Observo atentamente como consegue comida ali no meio daquela multidão. Quando não consegue eu levo. Engraçado. Já joguei um pedaço de carne lá de cima e ele comeu. Admiro tanto este animal que, pra mim aqui no alto, parece mesmo que ele é gente. Melhor até que gente. Não fala. Mal late. É imperceptível. Parece autoconfiante e raramente o vejo cabisbaixo. Rodolfo, rodolfo...
Uma vez o trouxe para minha casa pelas escadas. Mentira. Trouxe pelo elevador. E depois pela escada. Porque o elevador não vem até aqui. Só até o ultimo andar mesmo. Logo percebi que ele não gostava de altura. Muita pena mesmo. Gosto dele. Cachorro imundo e sem rumo. Parece que baba.
Se eu fosse um cachorro viveria atrás de uma cadela. “Sou homem”, chorei de emoção.


Juana Dobro

1.4.07

O SUBCOBSCINETE REVELADO

Com a assinatura característica de David Cronenberg, "Mistérios e Paixões" é um dos mais desconcertantes filmes dos últimos anos. Sem paralelos entre o livro e as imagens, o filme resulta numa obra ficcional e bizarra. Transportado para década de 90, "Mistérios e Paixões", dirigido por David Cronenberg e produzido por Jeremy Thomas, é baseado no romance perturbante de William S. Burroughs, "Almoço Nu", cuja adaptação cinematográfica dá uma continuidade a obra e a vida do autor. Este alheamento da realidade, transporta-nos para um mundo ficcional com uma estrutura semelhante ao mundo real, mas que no seu ego se mostra perverso. Numa busca das nossas emoções e prazeres mais caros, explora as capacidades aparentemente ilimitadas de abstracão do ser humano, criando um universo muito próximo, onde é difícil distinguir a realidade da alucinação.
No livro de William Burroughs, "Almoço Nu" - "um momento congelado em que todos vêem o que está na ponta do garfo" -, publicado em 1959, não há estória, enredo ou continuidade, nem a intenção de entreter alguém. O autor faz uma crítica à sociedade, por meio de um retrato da Interzone, uma cidade ficcional na qual os homens se transformam em insetos durante o sexo, o destino para onde Burroughs escapou depois de na vida real, acidentalmente, ter morto a sua mulher. E ele mesmo cita que, em seu livro, a palavra é dividida em unidades que formaram uma só peça e assim deve ser tomada, mas as peças podem ser consideradas em qualquer ordem, ligadas para trás e para frente, para dentro e para fora, antes e depois, como um interessante arranjo sexual. A maior preocupação que o autor tinha com o leitor era a visão do vício como modelo de controle e como uma fuga para as repressões impostas pela sociedade, relacionadas às potencialidades biológicas da humanidade.
Burroughs foi um dos grandes nomes da prosa beatnik, primeiro movimento de contra-cultura com uma importante repercussão histórica e cultural a acontecer nos Estados Unidos. Eram jovens que se conheceram dentro e fora da universidade, interessados em escritos não ortodoxos como Rimbaud, Blake, Melville, Withman, Kafka, Nietzsche, dadaístas e surrealistas, que simplesmente pareciam não se ajustarem nas imposições assépticas dos EUA. Inquietos e marginais eram expressamente contra a Indústria Cultural e apostavam em novas alternativas de vida. Buscavam lutar pelo próprio direito, não por um mundo melhor, nem por uma revolução, mas por uma opinião individual.
Burroughs nasceu em 1917 e viveu até o ano de 1997. Herdeiro rico, formado em medicina, foi viciado em heroína por 10 anos, e o relato desse tempo está em Junky, seu primeiro livro. “Almoço Nu” foi outro livro importante de sua obra, titulado por Jack Kerouac, no qual o autor “é capaz de olhar o inferno e contar para todos o que viu”. Com uma grande importância na literatura, a obra de Burroughs influenciou muitas outras expressões artísticas com as suas criações espontâneas, surreais e libertas de qualquer padrão.
David Cronenberg não se limita a folhear "Almoço Nu" e usar para a construção da narrativa de seu filme a própria vida de William Burroughs. "Mistérios e Paixões" enquadra-se numa trilogia específica, que embora não seja indiferente ao tema do corpo, explora abertamente a questão da capacidade da mente para controlar o nosso comportamento e o nosso destino. O poder imaginativo da mente afetada pela droga está presente em quase todas as cenas do filme. Uma viagem pela mente, onde o corpo se assume como protagonista, resulta no exagero dos devaneios do estado de psicose que o dedetizador William Lee (interpretado por Peter Weller) mergulha, chegando ao ponto de matar sua mulher (interpretada por Judy Davis), viciada em dedetê. Fato responsável pela fuga de Lee para a Interzone, uma cidade onde tudo é permitido.
A liberdade criativa do realizador, baseada num fascínio pela vida e obra de William Burroughs, resultaram num filme que ultrapassa as expectativas, ao transpor para o grande cinema a imaginação do universo de Burroughs, povoando as imagens da nossa experiência com fragmentos do mundo.

15.12.06

Dez Chamamentos Ao Amigo

de Hilda Hilst


Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse



Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.



Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta



Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

27.10.06

Uma noite com você no colo


E eu que desconfiei da alegria
Encontrei num erro
a certeza
de que o atalho era mais longo
Se foi Deus, Nossa Senhora, Buda, não sei

Hoje eu sei
Que o amor está além de gestos, signos e sentimentos

aprendi a chorar

Chorar de emoção
A vida me deu vida
A minha, só minha
VALENTINA

Te amo minha mãe

8.10.06

Li isso certo dia

Você olha a janela todo dia.
O que você aprende do que o seu olho apreende????????????
Do que a sua antena capta, o que você captura????????????

Além alma

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.

Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?



Arnaldo Antunes / Paulo Leminski - 1998